2012-10-14

Subject: Polémico estudo com milho GM sob crescente escrutínio

 

Polémico estudo com milho GM sob crescente escrutínio

 

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@ J. DEMARTHON/AFP/GETTY/NatureA tempestade de críticas científicas sobre as alegações de que um tipo de milho geneticamente modificado (GM) causa doenças graves em ratos não mostra sinais de acalmia.

Gilles-Eric Séralini, biólogo molecular na Universidade de Caen, França, está sob intensa pressão para revelar os dados completos por trás da descoberta da sua equipa de que ratos alimentados durante dois anos com milho NK603 resistente ao glifosato da Monsanto desenvolveram muito mais tumores e morreram antes do que os animais controlo.

O estudo, realizado em colaboração com o Comité para a Investigação e Informação Independente sobre Engenharia Genética (CRIIGEN) de Paris, também descobriu que os ratos desenvolveram tumores quando a sua água de beber continha glifosato, o herbicida usado em conjunto com o milho GM. As descobertas tiveram um enrme impacto público na Europa, fortalecendo aqueles que se opõem genericamente aos alimentos transgénicos e levando alguns políticos a apelar a regulamentações mais rígidas ou mesmo à proibição do dito milho.

Na semana passada, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (AESA) em Parma, Itália, e o Instituto Federal de Avaliação de Risco alemão emitiram uma avaliação inicial demolindo o artigo, afirmando que as suas conclusões não são apoiadas pelos dados apresentados. “A concepção, relatório e análise do estudo, como delineados no artigo, são inadequadas”, diz o comunicado da AESA, acrescentando que o artigo “não tem qualidade científica suficiente para ser considerado válido para uma avaliação de risco".

A maior crítica de ambas as análises é que Séralini apenas usou dez ratos de cada sexo nos seus grupos de tratamento. É um número de ratos por grupo semelhante ao usado na maioria dos testes de toxicidade a alimentos GM anteriores, incluindo o próprio teste da Monsanto no Missouri com o milho NK603. 

Esses testes regulamentares seguem ratos ao longo de 90 dias e as directrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) afirmam que dez ratos de cada sexo por grupo ao longo desse período de tempo é suficiente porque os ratos são relativamente jovens. Mas os testes de Séralini durou dois anos, praticamente o tempo de vida dos ratos, e para testes com esta duração a OCDE recomenda pelo menos 20 ratos de cada sexo por grupo em estudos de toxicidade química e pelo menos 50 para estudos de carcinogenicidade.

Mais, o estudo utilizou ratos Sprague-Dawley, que ambas as revisões salientam serem dados a desenvolver tumores espontâneos. Os dados fornecidos à revista Nature pelos Laboratórios Harlan, que forneceram os ratos para o estudo, mostram que apenas um terço dos machos e menos de metade das fêmeas vivem até às 104 semanas. Comparativamente, os seus ratos Han Wistar têm uma taxa de sobrevivência de mais de 70% às 104 semanas e menos tumores. As directrizes da OCDE afirmam que para experiências de dois anos, os ratos devem ter uma taxa de sobrevivência de pelo menos 50% às 104 semanas. Se tal não acontecer, cada grupo de tratamento deverá incluir ainda mais animais, 65 ou mais, de cada sexo.

“Há uma elevada probabilidade de que as descobertas relativamente à incidência dos tumores se devam ao acaso, dado o número reduzido de animais e a ocorrência espontânea de tumores nos ratos Sprague-Dawley", conclui o relatório da AESA. Em resposta à avaliação da AESA, a Federação Europeia de Biotecnologia, a entidade que representa os investigadores, institutos e companhias de biotecnologia de toda a Europa, apelou a que o estudo fosse retractado, descrevendo a sua publicação como “um perigoso caso do falhanço do sistema de revisão por pares".

 

Séralini defende que a bateria de observações do estudo reforçam as suas alegações sobre a incidência de tumores e mortalidade. “Claro que isto deve ser replicado por outros mas acreditamos nestes resultados." Ele concorda que mais ratos teriam aumentado o poder estatístico do seu estudo mas diz que não concebeu a experiência para mostrar a diferença na incidência de tumores pois não esperava encontrar nenhuns, nenhum dos testes anteriores com alimentos GM tinha sugerido um risco de cancro.

No entanto, Séralini promoveu os resultados do cancro como a maior descoberta do estudo, através de uma cuidadosamente orquestrada ofensiva mediática que começou no mês passado e incluiu a publicação de um livro e de um filme sobre o trabalho. Apenas um selecto grupo de jornalistas (onde não se incluía a Nature) teve acesso ao artigo embargado e cada um teve que assinar um muito invulgar acordo de confidencialidade, visto pela Nature, que os impedia de discutir o artigo com outros cientistas antes do embargo expirar.

É frequente os jornalistas receberem artigos embargados pelas revistas e a prática habitual é solicitar avaliações independentes antes da publicação. O acordo para este artigo, no entanto, não permitia nenhuma revelação e ameaçava com severas penalizações pelo não cumprimento: “Um reembolso pelos custo do estudo de vários milhões de euros seria considerado reparação se uma revelação prematura questionasse a publicação do estudo".

Numa acção excepcional, o comité de ética do Centro Nacional de Investigação Científica de França descreveu as relações públicas ofensivas por inapropriadas para um debate científico de alta qualidade e objectivo, recordando aos investigadores que trabalham em áreas controversas da necessidade de apresentar os resultados ao público de forma responsável.

Entretanto, Séralini diz que não disponibilizará quaisquer dados à AESA até que esta torne públicos todos os dados subjacentes à sua aprovação em 2003 do milho NK603 para consumo humano e rações animais. Também criticou a AESA, e a maioria dos detractores do seu estudo, por alegados conflitos de interesse, alegando que "está a ser atacado de forma extremamente desonesta por grupos de pressão que se fazem passar por comunidade científica".

A revista que publicou o seu estudo, a Food and Chemical Toxicology, referiu na semana passada em comunicado que “convida todos os que tiverem questões e preocupações com este artigo a enviarem ‘Cartas ao Editor'". 

 

 

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