2012-04-26

Subject: Esperança sangrenta para conservação

 

Esperança sangrenta para conservação

 

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@ NatureSanguessugas estão a oferecer a melhor esperança para encontrar um dos animais mais raros do mundo. 

O saola Pseudoryx nghetinhensis foi descrito pela primeira vez a partir de crânios encontrados numa reserva florestal vietnamita mas o esquivo antílope raramente foi visto com vida. Pouco se sabe sobre o seu território ou população, cujo efectivo provavelmente não ultrapassará as poucas centenas.

Agora os conservacionistas estão a planear passar a pente fino as sanguessugas tropicais em busca de DNA de saola. Desencadeada pela investigação publicada recentemente que mostrou que as sanguessugas podem armazenar o DNA das suas refeições durante vários meses, a busca do saola está na vanguarda de uma abordagem para avaliar a biodiversidade que pode vir a revelar-se muito mais eficiente que os métodos tradicionais. Em vez de montar armadilhas fotográficas, a ideia é recolher e sequenciar DNA deixado no ambiente, em tudo desde o solo ao estômago das sanguessugas.

“Tenho quase a certeza de que no espaço de 10 anos toda a investigação em biodiversidade será feita com DNA, pois será muito mais fácil obter este tipo de informação e o custo não é muito elevado”, diz Pierre Taberlet, geneticista na Universidade Joseph Fourier em Grenoble, França, e co-editor da edição de Abril da revista Molecular Ecology, dedicada ao emergente campo do estudo do DNA ambiental.

O saola é tão esquivo que tem sido apelidado do unicórnio asiático. Não foi avistado durante uma década até 2010, quando aldeões na província de Bolikhamxay capturaram um vivo, ainda que infelizmente tenha vindo a morrer em cativeiro poucos dias depois.

Em 2011, o Vietname estabeleceu uma pequena reserva para o saola no único território conhecido do animal, as montanhas Annamite na fronteira com o Laos. Uma estimativa mais precisa do território do antílope pode ajudar a dirigir os esforços de conservação, diz Nicholas Wilkinson, ecologista da Universidade de Cambridge, que está a trabalhar no país juntamente com o WWF. A sua equipa não conseguiu encontrar o saola usando armadilhas fotográficas e pensou trazer cães treinados para ajudar na busca, um custo estimado em US$400 mil. “Em grande parte, tinha desistido de encontrar um método de busca que fosse útil a tempo de salvar a espécie”, diz Wilkinson.

Mas no ano passado, recebeu um e-mail do geneticista Thomas Gilbert da Universidade de Copenhaga, descrevendo as suas experiências com sanguessugas. Gilbert, o seu colega Mads Bertelsen e sua equipa tinham alimentado sanguessugas medicinais Hirudo spp. com sangue de cabra, algo que “é muito mais difícil do que parece", diz Gilbert. A equipa recorreu a tentar os animais com preservativos cheios de sangue aquecido com uma lâmpada ou a colocar as sanguessugas em seringas ligadas a tubos de ensaio cheios de sangue e selados com filme. Depois de matarem as sanguessugas ao longo de vários meses, a equipa conseguiu identificar DNA de cabra em todas.

Para ver se a técnica podia identificar DNA de mamíferos na natureza, Gilbert pediu a Wilkinson que enviasse lhe algumas sanguessugas tropicais Haemadipsa spp. Wilkinson recolheu-as no lado vietnamita das montanhas Annamite e enviou-as para Copenhaga. 

A equipa de Gilbert não encontrou DNA de saola mas 21 das 25 sanguessugas que testaram continham DNA de outros mamíferos, incluindo o veado de Truong Son Muntiacus truongsonensis e o coelho das Annamite Nesolagus timinsi, que foi descoberto há apenas uma década. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) lista ambas as espécies como 'sem dados' pois sabe-se tão pouco sobre as suas populações ou habitat.

“É uma forma muito fácil de obter um instantâneo dos animais que existem na área”, diz Gilbert. As sanguessugas são impossíveis de evitar nas florestas tropicais e podem ser recolhidas às dúzias simplesmente arrancando-as das roupas dos investigadores mais intrépidos. Os custos em queda vertiginosa da sequenciação de DNA tornam os sensos com sanguessugas baratos e o DNA de centenas de animais pode ser combinado e analisado numa única experiência.

 

É improvável que o método forneça informação sobre a população de um animal mas as sanguessugas devem ajudar a identificar a sua distribuição. O teste de campo do Vietname sugere que as sanguessugas preservam o DNA apenas da sua refeição mais recente, pelo que a distribuição de um animal deve incluir a localização onde a sanguessuga foi encontrada.

Analisar o sangue das sanguessugas é apenas um dos muitos métodos de recolha de DNA ambiental que surgiram nos últimos anos. Na edição especial da revista Molecular Ecology, várias equipas de investigação identificaram a dieta de um leopardo sequenciando DNA nas suas fezes, seguiram comunidades de minhocas no solo e reconstruíram habitats antigos na Sibéria a partir de DNA preservado no permafrost. Entretanto, cientistas australianos encontraram DNA de espécies criticamente ameaçadas e de plantas tóxicas em medicamentos tradicionais chineses.

A maioria destes estudos são casos únicos que mostram o potencial das técnicas mas não como as aplicar de forma rotineira em sensos de biodiversidade, salienta Mehrdad Hajibabaei, geneticista molecular evolutivo na Universidade de Guelph no Ontário, Canadá. Ainda assim, diz ele, as avaliações de DNA ambiental têm-se aguentado bem quando comparadas com os métodos mais convencionais.

Os investigadores referem-se aos estudos com DNA ambiental como ‘meta-códigos de barras' pois dependem apenas de códigos de barras de DNA: curtas sequências de DNA que identificam de forma precisa uma espécie. Os códigos de barras tornam possível distinguir entre duas espécies de borboleta, por exemplo, sequenciando apenas uma porção de um gene. 

Mas a maioria do DNA recuperado de fontes ambientais, como o solo ou as fezes, foi partido em pequenos segmentos e as bases de dados de códigos de barras genéticos actuais tendem a conter os segmentos maiores que foram identificados com as antigas tecnologias de sequenciação de DNA. Muitos dos sequenciadores actuais conseguem ler segmentos de DNA mais curtos do que o comprimento do código de barras. “É uma pena que não possamos usar tudo o que foi desenvolvido”, diz Taberlet.

@ NatureHajibabaei, conselheiro no Projecto Internacional Código de Barras da Vida, que recolhe códigos de barras genéticos numa base de dados pública, responde que os códigos de barras mais curtos, bem como os avanços na tecnologia de sequenciação, vão resolver este problema.

Em Vientiane no mês passado, as sanguessugas foram o centro das atenções no encontro do grupo de trabalho da IUCN sobre o saola. Wilkinson tenciona oferecer recompensas aos aldeões que tragam sanguessugas com DNA de saola e conduzir sensos dirigidos liderados por cientistas. “Todos estão, sem surpresa, muito entusiasmados com o potencial”, diz ele. “Ainda não detectamos um saola mas é um método muito prometedor para o encontrar e praticamente a qualquer outro mamífero da floresta.”

 

 

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