2011-08-26

Subject: Ciclos climáticos conduzem guerras civis

 

Ciclos climáticos conduzem guerras civis

 

 

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Hsiang et al. Nature

Os ciclos climáticos naturais parecem ter uma marcada influência na guerra e paz em redor do Equador. Os países tropicais enfrentam o dobro do risco de conflito armado e guerra civil surgirem durante os anos quentes do El Niño quando comparado com os mais frescos anos La Niña do sistema El Niño/Oscilação do Sul (ENSO), segundo uma análise publicada na revista Nature.

O estudo lança luz sobre o altamente controverso tópico de saber se as alterações climáticas têm algum efeito notável na violência e na estabilidade social, particularmente nos países pobres. Os autores de vários livros populares já tinham proposto anteriormente uma ligação mas existem discordâncias na literatura científica sobre se um sinal climático robusto pode ser detectado nas estatísticas de conflitos.

Estudos anteriores tinham-se focado na questão de como as alterações climáticas antropogénicas poderiam aumentar o risco de conflito. Um estudo de 2009 do economista Marshall Burke, da Universidade da Califórnia, Berkeley, descobriu que a probabilidade de conflito armado na África subsariana era cerca de 50% mais elevada do que o normal em alguns anos anormalmente quentes desde 1981 mas os críticos apontam problemas estatísticos, por exemplo, a associação entre variações possivelmente o acaso de temperaturas e precipitações locais com surtos de guerra civil, resultando numa falsa aparência de causalidade.

Para ultrapassar este problema, Solomon Hsiang, economista da Universidade de Princeton, Nova Jérsia, optaram por analisar alterações históricas do clima global e não local e a forma como afectaram o risco de conflito.

A equipa concebeu uma 'quasi-experiência' na qual dividiram o mundo em regiões fortemente afectadas pela ENSO, as zonas tropicais da América do Sul, África e Ásia-Pacífico com partes da Austrália, e regiões pouco afectadas. Seguidamente procuraram uma ligação entre o clima e os conflitos armados que surgiram no primeiro grupo entre 1950 e 2004.

Um sinal muito claro surgiu nos dados. A equipa descobriu que o risco de conflito anual duplica, passando de 3% para 6%, no grupo de países afectados pela ENSO, ou telo-associados, durante os anos El Niño comparativamente aos anos La Niña. Em muitos casos, conflitos que teriam surgido na mesma podem ter sido antecipados devido aos efeitos do El Niño, sugere Hsiang.

Conflitos civis têm sido de longe a forma de violência política organizada nas décadas mais recentes, diz Hsiang. Globalmente, um quinto dos cerca de 240 conflitos civis desde 1950 podem ser associados a ciclos climáticos de 4 a 7 anos com origem no Pacífico sul, conclui o estudo. Os resultados não foram afectados por qualquer modificação à estatística da análise, tal como a exclusão de países africanos particularmente dados a crises, que a equipa realizou para confirmar a robustez das suas descobertas.

 

"A duplicação do risco é um efeito muito forte", diz Halvard Buhaug, investigador de conflitos do Instituto de Investigação Peace de Oslo, que não esteve envolvido no estudo. Buhaug, que tinha já criticado alegações como as de Burke, considera-se "surpreso e intrigado" pelos resultados. Garante que o estudo é "competentemente executado" mas acrescenta que a questão continu longe de estar resolvida. "Não nego que a correlação exista mas é uma correlação que não compreendemos. Continuo céptico sobre qualquer associação causal potencial."

Uma análise mais detalhada das narrativas de conflitos históricos ocorridos em anos de El Niño terá que ser feita para estabelecer se os factores que podem ter causado estes conflitos, como quebra nas culturas que conduziram a falta de alimentos, podem ser seguidos de volta ao El Niño, diz ele.

Os autores do estudo estão conscientes das suas limitações e das dificuldades envolvidas no estabelecimento da ligação causal entre o clima e conflitos mas, diz Hsiang, o estudo de casos estão em curso na Universidade de Columbia, Nova Iorque, sobre a forma como os eventos El Niño podem estar associados a surtos locais de violência.

"Diferentes hipóteses têm sido propostas sobre a forma como um fenómeno causa o outro e ainda não temos certezas sobre a narrativa correcta", diz ele. "Pode ser que o rendimento agrícola em anos El Niño caia para níveis que desencadeiam violência. Mais ainda, os psicólogos pensam que o comportamento agressivo se torna mais generalizado durante condições mais quentes."

Os eventos El Niño, acrescenta ele, não são, de todo, o único factor que leva a conflitos mas apesar destes ciclos climáticos naturais parecerem desempenhar um papel na paz dos países, os autores alertam contra conclusões precipitadas de que o aquecimento global antropogénico conduzirá a mais conflitos armados e instabilidade política.

Os modelos climáticos dão projecções ambíguas sobre a forma como a ENSO se alterará num mundo em aquecimento. "O El Niño é diferente em estrutura das alterações climáticas antropogénicas", diz Hsiang. "Por isso seria complicado mapear os nossos resultados sobre alterações futuras."

Mas Burke, que não esteve envolvido no estudo, considera que o trabalho pode ser útil para os países em risco. "O facto de a ENSO ser ela própria de alguma forma previsível torna as descobertas relevantes a nível de tomada de decisões. Se pensamos que o El Niño vem lá, então os governos das nações tele-associadas pode aplicar medidas e malhas de segurança para tentar reduzir o risco de conflito nesse ano."

 

 

Saber mais:

Instituto de Investigação Peace de Oslo

Aquecimento global enfraquece ventos do Pacífico

 

 

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