2011-03-27

Subject: Um enigma climático com 8 mil anos

 

Um enigma climático com 8 mil anos

 

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@ NatureOs cientistas encontraram novas evidências em apoio da controversa ideia de que a influência da humanidade sobre o clima terá começado não com a revolução industrial mas há milhares de anos.

Proposta pelo paleoclimatólogo William Ruddiman em 2003, a teoria refere que a influência humana compensou a eminente queda em direcção a outra idade do gelo e ajudou a criar o clima relativamente estável que nos é familiar actualmente. A teoria tem sido repetidamente apelidada de implausível pelos investigadores paleoclimáticos mas, há cerca de oito anos, Ruddiman e outros têm dito que têm dados que apoiam as primeiras alterações climáticas antropogénicas.

O argumento centra-se numa curiosa tendência nos níveis de dióxido de carbono e metano atmosféricos desde que a última idade do gelo há 11 mil anos e o actual Holoceno começou. 

Em períodos interglaciais anteriores, os níveis de CO2 elevaram-se cedo e depois gradualmente foram descendo até que o planeta entrava noutra idade do gelo. O Holoceno começou a seguir esta tendência mas depois os níveis de CO2 mudaram de rumo e começaram a subir há 8 mil anos. A mesma coisa aconteceu com os níveis de metano há cerca de 5 mil anos. Estas tendências alinham-se com a expansão da agricultura humana e Ruddiman, da Universidade da Virginia em Charlottesville, defende que isso não é coincidência: a limpeza do terreno e a expansão da irrigação libertaram enormes quantidades de gases de efeito de estufa para a atmosfera.

Os críticos dizem que as populações humanas eram provavelmente demasiado pequenas para apoiar esta hipótese e estudos recentes têm levantado questões sérias sobre as emissões iniciais de carbono e metano. 

Mas em vez de recuar, Ruddiman e vários outros investigadores vão apresentar as suas evidências de apoio numa série de artigos agendados para publicação numa edição especial da revista The Holocene ainda este ano. Os investigadores apresentaram parte do trabalho na Conferência sobre o Clima, Paisagens Antigas e Civilizações da União Geofísica Americana em Santa Fé, Novo México.

"Com certeza que sou tendencioso mas este ano vai ser um bom ano para a hipótese da influência antropogénica antiga", disse Ruddiman quando apresentou a sua antevisão do estudo.

Um dos estudos, liderado por Jed Kaplan, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, Suíça, sugere que a agricultura teve um impacto muito maior do que antes se acreditava à medida que se expandia pela Europa e mais além. Kaplan construiu um modelo detalhado para analisar as alterações de utilização da terra, incluindo dados históricos e arqueológicos sempre que possível. Ao contrário da maioria das estimativas anteriores, o modelo assume que o Homem limpou rapidamente mais terra ao início, com gradual intensificação à medida que a agricultura melhorou. "As pessoas são preguiçosas. Apenas intensificam a sua utilização da terra se são forçadas a isso." O resultado é mais ou menos o dobro das emissões de carbono do que antes se estimava.

 

Ruddiman também contestou um conhecido estudo publicado em 2009 pela Nature de um equipa da Universidade de Berna, Suíça, liderado pelo modelador climático Thomas Stocker, co-presidente do grupo de trabalho I do IPCC. O estudo tirou partido do facto de as plantas absorverem preferencialmente o isótopo carbono-12, alterando subtilmente a razão entre os carbonos-12 e 13 na atmosfera. Stocker analisou um núcleo de gelo antárctico e não encontrou evidências de alterações na razão, o que seria de esperar se o carbono libertado pelo abate de vegetação voltasse à atmosfera.

Mas esse estudo subestimou a quantidade de carbono-12 absorvido pelas zonas pantanosas, dizem Ruddiman e Kaplan. Assumiu que apenas 40 gigatoneladas de carbono estavam aprisionadas nas zonas pantanosas durante o final do Holoceno, enquanto outras estimativas chegam a 280 gigatoneladas ou mais. Esse número teria que ser compensado pelas emissões terrestres para manter a razão dos isótopos de carbono atmosférico.

Stocker refere que o último artigo de Ruddiman apenas "reitera por extenso todos os pontos já mencionados antes". Apesar de Stocker reconhecer que as estimativas das zonas pantanosas precisarem de ser melhor quantificadas, cita uma análise recente do seu instituto que sugere que as emissões de carbono devidas às alterações de utilização de terra não são nem suficientes, nem coincidentes no tempo para explicar a subida dos níveis de CO2 no Holoceno.

Kaplan diz que a análise da utilização de terra de Stocker tem alguns dos mesmos problemas e assunções que as anteriores. Outro estudo do The Holocene feito por Dorian Fuller, arqueólogo da University College de Londres, explora as emissões de metano devidas ao gado e ao aumento da cultura de arroz no sudeste asiático. Fuller diz que a expansão do arroz pode ser responsabilizado por até 80% do metano atmosférico adicional desde há mil anos e sugere que a expansão da pecuária pode ajudar a tapar o buraco nos milénios anteriores.

O paleoclimatólogo Eric Wolff, do British Antarctic Survey de Cambridge, reconhece que ainda que ninguém possa refutar a ideia de que o Homem teve um papel importante no clima do Holoceno, ninguém consegue provar que o tiveram. Ele recorda um estudo com modelos publicado na revista Nature em Fevereiro deste ano, liderado por Joy Singarayer, da Universidade de Bristol, mostra que variações orbitais e fontes tropicais podem explicar as tendências no metano do Holoceno. "Isto não prova que não houve influência antropogénica mas remove a necessidade de ter existido", explica Wolff.

Tanto Kaplan como Fuller dizem que o seu foco não é especificamente a teoria de Ruddiman mas a ideia de que o Homem pode ter influenciado o clima bem antes da revolução industrial. "A influência humana está lá", diz Fuller. "Conseguimos vê-la" Os investigadores têm muito que trabalhar em termos de quantificar as primeiras emissões humanas, acrescenta Kaplan, "mas começa a ser difícil apoiar a ideia de que a influência antropogénica foi negligenciável antes da era industrial".

 

 

Saber mais:

IPCC

The Holocene

 

 

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