2011-03-22

Subject: Maleitas da biodiversidade não se devem exclusivamente a alterações climáticas

 

Maleitas da biodiversidade não se devem exclusivamente a alterações climáticas

 

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@ NatureAs alterações climáticas estão a afectar o mundo de muitas formas mas as tentativas para associar directamente alterações locais na distribuição das espécies com ao aquecimento global são pouco prometedoras, alertam os ecologistas na revista Nature Climate Change. A autora principal Camille Parmesan, bióloga populacional na Universidade do Texas, Austin, explica porquê.

Defende que as tentativas para atribuir o grau de alterações locais, por exemplo o declínio de espécies individuais, especificamente ao aquecimento global são mal dirigidas. Porquê?

É importante analisar todas as coisas que podem originar um declínio, incluindo as alterações climáticas mas quando se trata de gerir e conservar espécies e ecossistemas, tentar determinar exactamente que quantidade de um declínio em particular se deve ao efeito de estufa não ajuda necessariamente e pode mesmo não ser possível.

Pode-Se, claro, atribuir várias alterações biológicas individuais a eventos climáticos, e mesmo às alterações climáticas, desde que existam estudos a longo prazo. Mas associar alterações observadas à componente humana das alterações climáticas exige uma escala diferente. Esse nível de atribuição é melhor para grandes áreas, Europa ou Estados Unidos. Quanto mais local for a escala, mais difícil será associar a eventos únicos de alterações climáticas conduzidas por gases de efeito de estufa.

Veja-se o exemplo da borboleta Quino Euphydryas editha quino do sul da Califórnia. Sabemos que as alterações climáticas são importantes: se o habitat da borboleta se torna seco e quente, aumenta a probabilidade de esta passar fome e se extinguir. No entanto, muitas populações também são afectadas por um gerânio invasor mediterrânico que está a competir com a planta de que a borboleta depende. A situação piora devido à poluição de Los Angeles e San Diego, com os fertilizantes a ajudar o gerânio a dominar. Não faz sentido perguntar que percentagem do declínio da borboleta se deve a alterações climáticas antropogénicas pois do ponto de vista científico não têm grande valor. Seria muito melhor gerir a invasão de gerânios, reduzir a poluição azotada e criar novas reservas que antecipem as alterações climáticas.

Então de que forma estão as alterações climáticas a afectar a fauna e a flora?

As alterações climáticas têm impacto sobre a biodiversidade por todo o mundo. A Primavera chega, em média, duas semanas mais cedo, quase dois-terços das espécies se reproduzem mais cedo e mais de 50% estão a mudar de habitat. Há uma consistência no padrão global de mais de 1700 espécies que estamos a estudar que nos dizem que as alterações estão associadas a uma força global comum e que é consistente com o que seria de esperar de um mundo em aquecimento.

Por isso podemos dizer com confiança que, por exemplo, a data da floração no norte da Europa avançou duas semanas mas não podemos ter a certeza de que o aquecimento global seja a razão de uma borboleta local se está a extinguir ou a deslocar-se para norte?

Sim, os sinais fenotípicos são mais claros do que as alterações na distribuição das espécies. As plantas e os animais respondem frequentemente à subida da temperatura, seja ela devida a alterações climáticas ou urbanização, que também causa aquecimento.

A nível local, os conservacionistas precisam de saber o que podem fazer gerir um conjunto complexo de alterações que incluem a fragmentação de habitat, poluição, predadores, etc. Depende particularmente do grau de sensibilidade às alterações climáticas da espécie mas não nos devemos focar demasiado na forma como sofre o impacto das alterações climáticas por si só, outros factores são frequentemente mais importantes.

Os cientistas já associaram anteriormente a extinção da icónica rã dourada da Costa Rica Bufo periglenes às alterações climáticas. Foi essa conclusão prematura?

Não, acho que a avaliação foi correcta. A rã dourada era endémica do Monte Verde da Costa Rica e atravessou três declínios populacionais importantes, cada um precedido de um ano extremamente quente e seco. O terceiro desses eventos conduziu à extinção da rã.

 

Parece ser um caso claro da extinção conduzida por três anos extremos, por isso sim, o clima causou a extinção mas temos apenas 17 anos de dados. Para dizer se a secura extrema foi causada pelo aumento dos gases de efeito de estufa exige uma análise da região como um todo e perguntar se este tipo de evento tem maior probabilidade num clima em aquecimento. Pode parecer uma distinção subtil mas é a que estamos a tentar exprimir.

A distribuição das espécies também está a mudar. O ouriço-do-mar Centrostephanus rodgersii, por exemplo, deslocou-se dos mares em aquecimento da Austrália e invadiu as águas temperadas da Tasmânia. Da mesma forma, muitas espécies terrestres de plantas e insectos estão a deslocar-se para os pólos. Não são estes sinais de alterações climáticas?

Claro, os ouriços-do-mar estão provavelmente a mudar devido ao aquecimento das águas e isso tem sido devastador para os ecossistemas mas poderia não se ter tornado invasor se o Homem não tivessem já pescado em excesso a lagosta das rochas da Tasmânia, nunca o saberemos. Há uma interacção entre as alterações climáticas e a pesca excessiva. 

Algumas pessoas querem desconstruir qualquer alteração biológica observada em causas separadas e aplicar-lhes percentagens. Na minha opinião não vale a pena perder tempo com isso pois nos sistemas reais tudo está em interacção.

Se temos dados de uma grande área, como o nosso estudo da borboleta na Europa, então podemos dizer com certeza que a mudança para norte de dois terços das borboletas europeias está associada ao aquecimento global na Europa. Mas se olharmos uma população no Reino Unido, por exemplo, e encontrarmos novas populações mais a norte, será mais complicado associar os gases de efeito de estufa e provavelmente não demos sequer tentar.

O IPCC apoia uma abordagem ainda mais detalhada à atribuição biológica, quanto mais não seja para informar os esforços de conservação. Acha que há uma forma melhor de abordar a conservação?

O IPCC existe para emitir ciência para responder às questões do decisores mas frequentemente é influenciado pela sua visão a preto e branco do mundo. Precisamos de treinar os decisores a pensar nas probabilidades e interacções. Eles não gostam disso mas é a forma correcta de descrever a ciência. Há momentos em que é preciso dizer às pessoas que essas não são as perguntas certas e este é um desses momentos.

A sua crítica inclui os estudos de atribuição física, ou seja, tentativas de identificar de que forma os gases de efeito de estufa afectam a probabilidade de eventos relacionados com o clima, como ondas de calor ou inundações?

Não, temos abordagens diferentes. Se os climatólogos conseguirem chegar a onde se sintam confortáveis em termos de atribuição à escala local, óptimo. Mas a biologia e a ecologia são fundamentalmente diferentes, e mais complexas, que a ciência climática. O Homem está a fazer muito mais mal às espécies selvagens do que apenas aumentar o dióxido de carbono. Que quantidade da vida selvagem está a ser afectada pelo aquecimento global depende do grau de stress do sistema devido a todos os outros factores.

 

 

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