2011-01-12

Subject: Anatomia de um ferimento cerebral

 

Anatomia de um ferimento cerebral

 

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Gabrielle GiffordsA congressista americana Gabrielle Giffords (democrata eleita pelo estado do Arizona) está em coma induzido por medicamentos mas o seu cérebro está num frenesim de actividade, numa tentativa de recuperar do trauma que sofreu no sábado passado, quando foi baleada na cabeça em Tucson, Arizona, por um atirador que também disparou contra 19 outras pessoas, matando seis. Apesar da recuperação de Giffords poder demorar anos, é possível que ela possa um dia voltar à política, dizem os médicos.

"Se penso que ela pode regressar ao trabalho como congressista? Sim", diz Arthur Kobrine, neurocirurgião em Washington DC que tratou Jim Brady, o secretário de imprensa da Casa Branca que foi atingido na cabeça em 1981 durante uma tentativa de assassinato do presidente americano Ronald Reagan. "Mas ser possível não é igual a ser provável."

As consequências a longo prazo de um ferimento na cabeça são desencadeadas por uma cascata de acontecimentos neuroquímicos nos segundos e minutos após a ocorrência do ferimento, diz Kobrine.

A bala destrói primeiro o tecido que está no seu percurso, que no caso de Giffords foi no lado esquerdo do cérebro, mas também danifica neurónios fora desse percurso pois é seguida por uma onda de pressão que transfere a energia da bala para o tecido envolvente.

Esta onda de pressão activa todos os neurónios que atinge. Os neurónios tentarão depois o equilíbrio electroquímico de repouso absorvendo água, o que resulta num edema cerebral. Esta tentativa também consome uma enorme quantidade de energia, mais do que o cérebro ferido consegue fornecer, criando uma crise energética no cérebro.

Os médicos de Giffords estão a lidar com essas complicações removendo uma porção do seu crânio para aliviar a pressão do edema e induzindo um coma médico para reduzir as exigências energéticas do cérebro.

À medida que o cérebro recupera da exaustão do ferimento inicial ao longo de semanas e meses, os pacientes recuperam algumas das funções cerebrais as regiões que não foram directamente danificadas pelo ferimento. Gregory O'Shanick, presidente da Associação de Ferimentos Cerebrais da América em Vienna, Virginia, diz que os pacientes recuperam algumas capacidades rapidamente nos seis meses que se seguem a um ferimento mas subsequentemente recuperam mais lentamente.

Parte dessa recuperação deve-se a novas ligações no cérebro. Os neurónios que não morreram durante o ferimento desenvolvem novas ligações, tentando recuperar as suas funções e substituir funções que podem ter sido perdidas com os neurónios que morreram. Os pacientes também aprendem a compensar as capacidades perdidas, por exemplo, lavando os dentes com a mão esquerda se já não o conseguem fazer com a direita.

 

David Hovda, director do Centro de Investigação de Ferimentos Cerebrais da Universidade da Califórnia, Los Angeles, diz que nas últimas décadas os neurocientistas descobriram evidências de que o cérebro pode criar novos neurónios, especialmente depois de um ferimento. "Mas se eles contribuem para a recuperação da função ou para a redução de deficits não sabemos", diz Hovda.

Giffords pode recuperar muita da sua função cerebral normal através de terapia de reabilitação. A história de Brady é instrutiva: ele inicialmente perdeu toda a função da perna esquerda e tinha dificuldade em controlar as emoções enquanto falava. Também tinha deficits de memória e pensamento, como problemas em reconhecer pessoas mas 30 após o tiro ele consegue caminhar e recuperou praticamente todas as suas funções cognitivas e de linguagem, diz Kobrine.

No entanto, Giffords enfrenta um desafio especial por ser uma mulher. "As mulheres têm tendência para recuperações menos completas que os homens, por razões que ninguém entende claramente", diz O'Shanick.

Mesmo que Giffords recupere a maior parte das suas capacidades de movimento e pensamento, poderá sofrer de uma vasta gama de complicações para toda a vida. Por exemplo, terá um risco mais elevado de desenvolver demências ou Parkinson. Até 50% das pessoas que sofreram ferimentos penetrantes no cérebro também desenvolvem epilepsia, talvez devido ao sangramento expor o cérebro a altas doses de moléculas chamadas hemosiderinas, que se forma à medida que a hemoglobina se degrada. Muitos pacientes com ferimentos no lado esquerdo do cérebro também sofrem de depressão pois esse lado está evolvido no controlo das emoções.

Talvez o mais famoso sobrevivente de um ferimento cerebral da história seja Phineas Gage, o ferroviário americano que sobreviveu para contar depois de uma explosão ter projectado uma barra de ferro através da sua cabeça em 1848. Ele terá sofrido de depressão depois do ferimento e morreu em 1860 em resultado de ataques epilépticos resultantes do evento.

Sejam quais forem as complicações que Giffords sofra, o caminho para a recuperação será longo. "Sem dúvida que será uma situação para o resto da vida para ela", diz O'Shanick.

 

 

Saber mais:

Brain Injury Association of America

Brain Research Institute UCLA

 

 

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