2010-11-21

Subject: 'Pescar descendo a teia alimentar' falha no teste global

 

'Pescar descendo a teia alimentar' falha no teste global

 

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@ NatureUm pilar da ciência de pescas moderna pode não ter fundamento, sugere um estudo da forma como as capturas estão a afectar os ecossistemas marinhos. A descoberta desencadeou um aceso debate sobre a melhor maneira de medir o impacto humano sobre os oceanos.

Um estudo basilar realizado em 1998 descobriu que estamos a 'pescar descendo a cadeia alimentar' em todo o mundo, por outras palavras, estamos a dizimar os stocks de predadores de topo (como o bacalhau) antes de virar a nossa atenção para outras espécies marinhas. Desde essa altura que esta situação se tornou sabedoria aceite mas um estudo agora conhecido sugere que o indicador em que esta alegação se baseia, o 'nível trófico médio' ou NTM, tem falhas graves.

Os autores do artigo de 1998 já reagiram, considerando as últimas investigações "completamente inválidas". Mas Trevor Branch, autor principal do estudo publicado na revista Nature e cientista de pescas na Universidade de Washington, Seattle, mantém a sua posição: "Ao nível global não estamos a descer a cadeia alimentar ao pescar, os resultados são muito claros quanto a isso."

Branch diz que pescar descendo a cadeia pode ter ocorrido em algumas zonas, por exemplo com o bacalhau do Atlântico, mas noutros locais, como no golfo da Tailândia, as pescas tinham como alvo seres mais abaixo na cadeia alimentar, como os mexilhões ou os camarões, e estão agora a subir a cadeia.

O NTM dos animais capturados numa dada pescaria é a média da sua posição na teia alimentar. Uma pescaria que tenha como alvo exclusivo predadores de topo como o escamudo pode ter um NTM de cerca de quatro, enquanto outra que busque apenas produtores primários na base da cadeia alimentar, como as algas, terá um nível trófico de um.

Em 1998, um artigo publicado na revista Science descobriu que o NTM dos peixes capturados globalmente estava a descer em 0,1 por década. "É provável que a continuação das tendências actuais conduza a colapsos das pescas generalizados", alertavam os autores.

O pressuposto subjacente a tais alertas, diz Branch, é que o NTM das capturas reflecte rigorosamente o NTM do próprio ecossistema e a sua biodiversidade. Segundo a sua análise, isso não é verdade.

Usando dados de modelos e fontes como capturas e arrastos científicos, a equipa de Branch descobriu que o NTM das capturas pesqueiras divergem frequentemente do NTM do ecossistema. Também olharam novamente para o NTM das capturas e descobriram valores "substancialmente diferentes" dos citados no artigo de 1998. O NTM das capturas, dizem eles, reduziu-se na década de 50 mas tem aumentado novamente desde meados da década de 80.

Isto é preocupante porque os esforços de conservação marinha dependem rotineiramente do NTM, este é o principal indicador usado pela Convenção sobre a Diversidade Biológica, por exemplo. A nova investigação "não está a dizer que as coisas estão melhor ou pior, está apenas a dizer que o indicador não nos dá a informação que pensávamos que dava", diz Branch. "Em vez de nos focarmos numa simples medida baseada nas capturas, temos que voltar atrás e seguir o que se passa no ecossistema."

 

Mas Daniel Pauly, cientista de pescas na Universidade da Colúmbia Britânica e autor principal do estudo da Science de 1998, é ferozmente crítico do novo estudo. O crucial, diz ele, é que o novo artigo não tem em conta a enorme expansão da área abrangida pelas pescas ao longo do tempo. À medida que os navios aumentam a sua autonomia, podem capturar mais predadores de topo em águas abertas, o que mascararia o facto de as pescas perto da costa, por exemplo, estarem realmente a descer a cadeia.

O seu co-autor Rainer Froese, do Instituto de Ciências Marinhas Leibniz em Kiel, Alemanha, concorda. "A expansão para o mar alto em busca de atum ou para a plataforma profunda ou montes submarinos por outras espécies vai obviamente aumentar o NTM das capturas, sem qualquer relação com capturas anteriores em águas rasas. Isso vai mascarar qualquer efeito de pesca a descer a cadeia que tenha tipicamente ocorrido a remoção de garoupas e tubarões."

Pauly e Froese dizem que investigações subsequentes têm apoiado a sua conclusão de que as pescas a descer a cadeia estão a acontecer por todo o mundo. Pauly também alerta para o facto de pescas em expansão rápida na Ásia e América do Sul estão mal representadas no estudo de Branch, logo este pode não representar as pescas mundiais.

Em resposta, Branch diz que ainda não observa uma tendência de pesca a descer a cadeia nos sensos científicos ou nas avaliações dos stocks, que medem a mesma zona todos os anos e não seriam afectados pela expansão da área de capturas.

"Estas são medições directas do que se passa nos ecossistemas, ao contrário das capturas, que medem apenas o que se retira do ecossistema e não o que nele permanece", diz Branch. A expansão do alcance vai tornar o NTM menos fiável como indicador, sugere ele.

Timothy Essington, investigador de pescas da Universidade de Washington, Seattle, cujo trabalho foi citado por Branch, defende que para uma imagem mais detalhada do que se passa nos ecossistemas, o NTM deve ser usado em combinação com outras medidas. O trabalho original de Pauly criou uma "visão a 20 mil pés", diz ele. "O que estamos a ver agora é que a visão dessa altitude não é muito clara."

Essington compara a utilização do NTM a um médico a tirar a temperatura ao doente. Se a temperatura muda rapidamente provavelmente é uma indicação de que algo está mal mas se o médico decidir usar um dado tratamento apenas com base na temperatura "é melhor não voltar lá".

 

 

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