2010-08-01

Subject: Estudo sobre dor em ratos causa polémica

 

Estudo sobre dor em ratos causa polémica

 

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@ NatureUma equipa de investigadores canadianos que induziu dor em ratos para ajudar a desenvolver uma 'escala de esgares' ficou sob fogo de uma organização de apoio à investigação, que colocou um comentário online sugerindo que os cientistas não obedeceram às regras de bem-estar animal canadianas mas os funcionários governamentais daquele país já determinaram que isso não é verdade.

A equipa de investigação, liderada pelo geneticista da dor Jeffrey Mogil, da Universidade McGill em Montreal, Quebec, gravou em vídeo as expressões faciais de ratos durante 14 procedimentos indutores de dor, como a imersão da cauda em água quente, colocar um clipe na cauda, cortar uma pata, injecção de químicos nas patas ou estômago e constrição ou dano de nervos durante cirurgias. 

Os investigadores codificaram a intensidade das expressões faciais e relataram a sua técnica na edição de Maio da revista Nature Methods.

Há duas semanas, a Principal Investigators Association, uma organização sem fins lucrativos sediada em Naples, Florida, que "comunica e promove as melhores práticas e a contínua educação profissional", publicou um tópico de discussão sobre o estudo no Animal eAlert, a sua newsletter online para investigadores. 

O comentário acusava a equipa de McGill de causar dor severa a ratos que não estavam anestesiados e questionava se as regras definidas pelo Conselho Canadiano de Bem-estar Animal, que monitoriza a utilização de animais em pesquisas científicas, teriam sido seguidas. Essas regras proíbem ou desencorajam fortemente os procedimentos que causem dor severa "ao ou acima do limiar de tolerância de dor".

Mais de 100 pessoas responderam ao tópico no fórum. "Uma coisa é clara", diz Leslie Norins, chefe executivo da Principal Investigators Association, que aprovou os comentários colocados no fórum online. "A fraternidade dos experimentadores com a dor em ratos terá muito mais cuidado no futuro na explicação com grande detalhe do que está a fazer."

Os investigadores de McGill usaram experiências standard que são permitidas em muitos países. "Existem artigos publicados todas as semanas que utilizam estas técnicas", diz o investigador da dor Paul Flecknell, que desenvolveu formas de avaliar e aliviar a dor em animais na Universidade de Newcastle, Reino Unido.

"Tanto quanto posso dizer, os cientistas seguiram as directrizes éticas", diz Allan Basbaum, investigador da dor na Universidade da Califórnia, San Francisco, que contribuiu para o relatório de 2009 do Conselho Nacional de Investigação Americano sobre Reconhecimento e Alívio da Dor em Animais de Laboratório. Este relatório afirma que a presença de desconforto ou dor de forma continuada pode ser aceitável se for exigido pelos objectivos experimentais. "Duvido muito que tivesse feito as coisas de alguma forma diferente."

À luz da controvérsia, o Conselho Canadiano sobre Bem-estar Animal reavaliou o estudo McGill e anunciou na semana passada que este cumpria as regras de cuidado de animais de laboratório. O Conselho promove a adopção de um conjunto de princípios de investigação conhecidos pelos 'três R': replacement (substituição), reduction (redução) e refinement (refinamento) da utilização de animais para minimizar a dor e a perturbação.

 

A nível local, o comité de bem-estar animal da Universidade McGill e um subcomité independente de ética aprovaram o estudo antes da sua implementação e com intervalos de um ano durante os três anos em que decorreu. Apesar da substituição de ratos por culturas de tecidos ou por espécies menos conscientes não fosse possível neste caso, o comité deu orientações sobre o número mínimo de animais necessário para a obtenção de resultados significativos, diz Jim Gourdon, director do Centro de Medicina Comparativa e Recursos Animais da Universidade McGill.

O comité de ética da universidade, composto por veterinários, cientistas, representantes da comunidade e estudiosos da ética, também pesou os potenciais benefícios do estudo contra os seus riscos e procurou 'pontos finais' adequados (o momento mais cedo possível em que o animal poderia sofrer eutanásia, determinado pelo objectivo do estudo e critérios apropriados), diz Lorraine Chalifour, presidente do comité de bem-estar animal da McGill. 

Para reduzir a dor nos ratos, a equipa de investigação anestesiou-os quando sofreram cirurgias aos nervos e parou algumas das experiências assim que os animais revelaram sinais de desconforto, como o retirar reflexo da cauda de uma fonte de calor ou a tentativa de remover um clipe da cauda. A equipa também utilizou os mesmos ratos para outras experiências e matou-os de forma humana logo que os testes comportamentais terminaram, diz Mogil. "O que fizemos foi 100% de acordo com as regras e não foi diferente das pesquisas sobre dor que decorrem por todo o mundo neste momento."

A controvérsia parece ter surgido, em parte, devido a uma interpretação incorrecta de algumas frases no artigo. Mogil e a sua equipa usaram o termo "severa", mas para descrever as expressões faciais e não a intensidade da dor. "Não há forma de saber com certeza a quantidade de dor que um animal está a sentir", diz Mogil.

Ainda assim, os ratos usados nas experiências não mostraram os sinais óbvios de dor extrema, como a imobilidade, vocalizações ou deixarem de se alimentar e tratar da pelagem, acrescenta ele.

Talvez a maior causa de preocupação são os modelos de danos nervosos que a equipa usou, diz Flecknell. Os ratos foram mantidos vivos sem qualquer método de alívio de dor até duas semanas após a cirurgia. "Se há dor neuropática severa, sabemos que as pessoas a consideram muito perturbadora e debilitante."

No entanto, acrescenta ele, é importante testar os procedimentos de avaliação de dor em modelos roedores da dor neuropática, causada por danos aos nervos e não por estímulo de receptores de dor. Os analgésicos tradicionais nem sempre aliviam a dor neuropática com sucesso, pelo que estes modelos são importantes no desenvolvimento de novos medicamentos.

Mas na experiência de Mogil, os animais com dor neuropática não revelaram alterações detectáveis na expressão facial, logo "é demasiado cedo para determinar até que ponto esta abordagem é útil", salienta Flecknell.

 

 

Saber mais:

Canadian Council on Animal Care

Comparative Medicine and Animal Resources Centre

Lab Animal eAlert

 

 

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