2010-07-18

Subject: Ecologistas evitam a selva urbana

 

Ecologistas evitam a selva urbana

 

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@ NatureOs maiores ecologistas do mundo não estão a estudar as paisagens que precisam de mais trabalho, arriscando-se a retardar os esforços de conservação e a tornar o seu campo de estudo irrelevante.

Esta é a forte mensagem enviada por investigadores americanos que quantificaram o grau em que os ecologistas se dedicam a zonas selvagens intocadas à custa das regiões habitadas. A tendência é um enorme problema, tanto para a ciência como para o ambiente, dizem eles, pois as áreas utilizadas pelo Homem, e que correspondem à maior parte dos continentes terrestres, são as que mais precisam de conservação.

Os investigadores irão apresentar o seu trabalho no encontro da Sociedade Americana de Ecologia, que decorrerá em Pittsburgh, Pennsylvania, no próximo mês.

"Neste momento, os nossos quintais são caixas negras", diz Laura Martin, estudante de graduação em ecologia da Universidade de Cornell em Ithaca, Nova Iorque, que foi inspirada a perseguir esta análise depois de ler um artigo na revista Nature no ano passado (ver 'Ecology: Ragamuffin Earth'). "Há subúrbios, aldeias e terras agrícolas que estão a ser completamente postos de lado relativamente aos processos ecológicos." 

A tendência para gravitar em direcção às zonas selvagens para estudos de campo há muito que foi reconhecida pelos ecologistas mas nunca tinha sido quantificada.

Martin reviu cada um dos 8040 artigos publicados nas 10 principais revistas de ecologia de todo o mundo ao longo dos últimos cinco anos, especialmente os 2573 estudos conduzidos em terra e categorizou-os de acordo com as descrições dos autores dos locais examinados.

Descobriram que em apenas um em cada seis artigos os ecologistas tinham deliberadamente estudado regiões usadas pelo Homem. Dos 2573 artigos, 323 (13%) eram descritos como tendo sido realizados em zonas de produção de alimentos, 78 (3%) em zonas urbanas e 23 (1%) em zonas suburbanas. Pelo contrário, perto de dois terços dos estudos (1629 ou seja 64%), foram descritos como tendo ocorrido em "zonas protegidas" como parques nacionais, em que não há pessoas a viver ou trabalhar. Os restantes 520 (20%) não puderam ser claramente classificados mas não mencionavam zonas utilizadas pelo Homem.

"Aproximadamente 75% dos continentes livres de gelo está sob utilização directa ou indirecta do Homem, no entanto entre 63 e 83% dos estudos estão a ser realizados em áreas sem pessoas", diz Martin. "A assumpção subjacente é que a acção humana numa dada área a torna menos valiosa para os estudos."

A equipa também analisou as categorias de ecossistemas (biomas) em que os 1478 estudos que davam coordenadas geográficas decorreram. As florestas temperadas como as da Europa e da América do Norte, conhecidas por serem ecologicamente produtivas e com biodiversidade moderada, foram excessivamente estudadas relativamente à sua ocorrência no mundo, enquanto os desertos foram os mais negligenciados.

Também analisaram que categoria de ecossistema humano (antroma, ou seja, bioma antropogénico) os estudos se focaram. Os resultados parecem desafiar a descoberta inicial de que os ecologistas se dedicam mais às zonas selvagens pois as zonas colonização densa foram excessivamente estudadas por um factor de dez relativamente à sua área global.

"Primeiro pensámos que a análise espacial devia estar errada", diz Erle Ellis, ecologista da paisagem da Universidade do Maryland, Baltimore County, que realizou o exercício de colocar em mapa global os resultados. De facto, explica ele, é uma combinação dos antromas que ele determinou corresponderem aos estudos e a descrição dos autores dos locais estudados que dá a imagem mais correcta do comportamento dos ecologistas.

 

Uma porção significativa dos estudos que alegavam ser em áreas protegidas foram na realidade realizados em zonas altamente povoadas mas os ecologistas estavam a conduzir os seus estudos nas partes menos perturbadas dessas zonas e, ainda por cima, a tratá-las como se fossem zonas não perturbadas pela acção humana. Não estavam a estudar os jardins suburbanos ou mesmo os parques mas as "zonas selvagens a fingir" à sua volta, diz Ellis. "Estavam a estudá-las sem considerar o factor humano relevante e ao faze-lo estavam a falhar um dos aspectos mais importantes dos padrões ecológicos contemporâneos, o processo e a mudança."

A mensagem para o campo é clara, diz Ellis. Apesar de muitos ecologistas terem começado a reconhecer a importância do estudo das paisagens humanas nas últimas décadas, ainda têm que o fazer e não apenas falar.

A análise dos antromas também descobriu que as verdadeiras terras selvagens, as áreas realmente sem acção humana, tinham deficit de estudos, recebendo 30% menos atenção do que seria de esperar perante a sua área global. A interpretação de Ellis é que os ecologistas tentam ir para as zonas realmente selvagens mas acabam por falhar. Isso explica porque, diz ele, o antroma semi-natural, que é maioritariamente selvagem mas mais fácil de alcançar que as zonas selvagens, tem o dobro dos estudos que mereceria em relação à sua área global.

Terry Chapin, o futuro presidente da Sociedade Americana de Ecologia, diz que é importante que a tendência da disciplina para estudar as zonas selvagens seja quantificada. "É realmente importante que os ecologistas façam investigação em zonas povoadas pelo Homem, não chegaria ao ponto de considerar pouco importantes os estudos das zonas intocadas mas claramente precisamos de saber muito mais sobre o nosso impacto directo na biosfera."

Simon Lewis, investigador de Leeds sobre a ecologia da floresta tropical, considera que evitar os impactos humanos directos é uma estratégia vulgar em estudos de ecologia pois ajuda a tornar sistemas complexos mais tratáveis analiticamente. "A nossa compreensão mesmo das características mais básicas das áreas principais, como a bacia do Congo, não existe. Acrescentar o impacto humano directo aos estudos exige uma compreensão inicial substancial." 

Mas ele também concorda que tem que haver um equilíbrio de esforços tanto longe dos habitats intocados, como da zona temperada, onde a maioria dos ecologistas, e o seu financiamento, se concentram. "Esta tendência para a zona temperada, penso eu, é o verdadeiro desequilíbrio na investigação ecológica."

Chapin refere que a Sociedade Americana de Ecologia já está a tentar encaminhar os seus membros nesta reorientação para questões ecológicas em larga escala e as alterações ambientais que estão em curso, desafiando os ecologistas a pensar no foco dos seus estudos. "Este estudo é exactamente o tipo de coisa que precisa de ser feita." 

 

 

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