2010-07-15

Subject: O legado perdido do último grande derrame de petróleo

 

O legado perdido do último grande derrame de petróleo

 

Dificuldades em visualizar este email? Consulte-o online!

@ NatureO poço explodiu, o mecanismo anti-explosão falhou, e a plataforma petrolífera incendiou-se, acabando por se afundar.

O petróleo jorrou para o golfo do México a uma taxa avassaladora, a partir do tubo danificado que antes unia a plataforma ao poço no fundo mar.

Ninguém sabia o que fazer, apesar de os engenheiros tentarem várias medidas para conter o fluxo de petróleo, incluindo uma cúpula de contenção. Dispersantes químicos para degradar o petróleo foram aplicados foram aplicados a uma das maiores taxas da história e parte do petróleo ficou aprisionado abaixo da superfície do oceano, com efeitos indeterminados, e parecia que o derrame poderia durar para sempre.

Bem se pode considerar esta descrição déjà vu de um desastre.

Esta descrição tão familiar não se refere ao actual derrame da plataforma Deepwater Horizon mas a um outro episódio de há três décadas e cerca de mil quilómetros a sua, num poço exploratório conhecido por Ixtoc I, operado pela companhia Petróleos Mexicanos (PEMEX). Entre 3 de Junho de 1979, a data da explosão, e 23 de Março de 1980, quando a Ixtoc I foi finalmente estancada, foram derramadas cerca de 475 mil toneladas de petróleo para as águas a noroeste da Ciudad del Carmen na península do Iucatão.

Os investigadores que estão a lutar para determinar os impactos ambientais a longo prazo do derrame da Deepwater Horizon começaram a perguntar que lições úteis a Ixtoc I ofereceu. "Penso que levou algum tempo para que a comunidade de investigação a redescobrir mas acho que agora o fizeram", diz Arne Jernelöv, bioquímico ambiental do Instituto de Estudos Futuros de Estocolmo, que estudou o derrame da Ixtoc I para as Nações Unidas.

Mas as respostas são escassas. Como os financiamentos para os estudos sobre o impacto do derrame secaram rapidamente após o derrame, os peritos consideram a Ixtoc I uma oportunidade perdida. "A investigação foi parada", diz Wes Tunnell, director associado  do Instituto de Investigação Harte na Universidade Texas A&M em Corpus Christi. "Esse foi o verdadeiro crime desse derrame."

Desde a explosão da Deepwater Horizon, Tunnell, que estudou intensivamente os habitats costeiros do México depois do derrame da Ixtoc I, tem sido inundado com questões sobre esse derrame e os seus efeitos a longo prazo, questões a que ele não pode responder. 

"Eu decidi que precisava de voltar", diz ele, por isso, com o apoio do Instituto Harte, revisitou duas das áreas que foram mais danificados pelo derrame. A sua missão foi recolher amostras de petróleo que pudesse permanecer e entrevistaram os pescadores locais sobre as suas experiências durante e após o derrame.

Em alguns casos, as suas memórias são agora os únicos dados disponíveis sobre os efeitos do derrame da Ixtoc I pois pouco foi publicado sobre o desastre desde os primeiros após a sua ocorrências. Uma conferência patrocinada pelo governo mexicano realizou-se em 1982 mas o prometido volume dos procedimentos e artigos apresentados nunca surgiu. Desde então, o Instituto Harte colocou alguns deles no seu site (http://go.nature.com/rvwUwI).

Na semana passada, durante a mais recente viagem de Tunnell, a primeira paragem foi uma linha de costa calcária perto da cidade de Champotón, na costa oeste da península do Iucatão. Há trinta anos, recorda ele, as poças de maré estavam cheias de petróleo. O desenvolvimento e a construção de estradas alteraram significativamente a costa desde então mas ainda assim Tunnell rapidamente encontrou uma mancha de 40 cm de alcatrão acima da linha de maré.

@ NatureApós raspar a camada superior, os investigadores descobriram que o alcatrão ainda brilhava. "Está como novo", diz o colega de Tunnell, Júlio Sánchez Chávez, biólogo das pescas da Universidade Autónoma de Campeche no México. Outro colega irá analisar as amostras recolhidas para verificar se apresentam a assinatura química do petróleo da Ixtoc I.

É improvável que o petróleo esteja a ter impactos ecológicos significativos após estar exposto às condições climáticas tanto tempo mas o resíduo é uma recordação do que a região passou quando o petróleo chegou a terra pela primeira vez. Há trinta anos, a maioria das vilas pesqueiras eram tão isoladas que os locais sabiam pouco do desastre que estava a acontecer a poucos quilómetros de distância. Muitos acreditavam que o derrame da Ixtoc I era bastante pequeno, apesar de estar entre os maiores da história do planeta.

Mas os efeitos rapidamente se tornaram aparentes.

Carlos Castillo, agora com 78 anos, era na época um ávido mergulhador que pescada com arpão para fornecer o seu pequeno restaurante. Antes da Ixtoc I, era habitual que capturasse 30 kg de garoupa e outros peixes em duas horas, recorda ele, mas com o derrame e aderência do petróleo à sua máscara começou a ficar doente e, eventualmente, o peixe ou estava morto ou partia para águas limpas. 

 

Os anos do derrame foram devastadores para os pescadores, muitos dos quais não tinham outras fontes de rendimento ou de alimento, mas as pescas recuperaram mais depressa do que a maioria dos peritos esperava. Chávez diz que os registos das capturas de camarão de Campeche, por exemplo, sugerem que em dois anos os pescadores estavam a pescar o habitual. 

Os pescadores locais dizem que as capturas melhoraram substancialmente no espaço de três a cinco anos. Tunnell salienta que o golfo pode ter sido bem mais saudável e resistente na época, pelo que é difícil dizer se as espécies do norte do golfo recuperarão tão rapidamente do derrame actual. A quebra na pesca comercial devido a temores de contaminação pode ajudar na recuperação das espécies mais exploradas.

Em certos locais de Campeche, no entanto, há sinais ominosos de que nem todos os ecossistemas se deram tão bem. Depois de deixar Champotón, Tunnell viajou 125 km para norte até Isla Arena, para procurar petróleo nos mangais. A poucos quilómetros da aldeia, encontrou pedaços de petróleo muito degradado mas também manchas de asfalto ainda pegajoso e malcheiroso.

Mais perturbadora é a ausência de ostras em volta de Isla Arena, onde em tempos foram tão abundantes que os pescadores locais diziam que bastava cortar um ramo de mangal e recolhiam moluscos suficientes para alimentar toda a família. As ostras nunca regressaram depois da Ixtoc I, segundo os pescadores, e não há pesquisa que explique porquê. "Tanto quanto sei, este é um dos ecossistemas menos estudados do México", diz Tunnell. Ele está intrigado pela história das ostras e espera desenvolver pesquisas sobre a questão.

Até agora, diz Tunnell, a principal lição da Ixtoc I para os que respondem ao actual derrame é que as praias arenosas e as costas rochosas podem recuperar relativamente rápido mas os ecossistemas mais produtivos, como os sapais e mangais, retêm o petróleo indefinidamente e podem levar décadas a recuperar a saúde.

Jernelöv refere que outras características da Ixtoc I podem dar uma ideia do que nos espera nos próximos meses e anos. Por exemplo, apesar da profundidade da água na Ixtoc I ser de apenas 50 metros, comparados com os 1500 metros do derrame actual, também ela gerou plúmulas de petróleo abaixo da superfície. O petróleo deu a volta ao golfo e algumas praias do Texas receberam crude inesperadamente, após ele se ter misturado com águas superficiais perto da costa. "Não se via nada e de repente tinha-se petróleo nas praias", diz Jernelöv.

Em termos gerais, Tunnell, Jernelöv e outros investigadores familiarizados com a Ixtoc I concordam que a lição mais importante a retirar é a continuação do estudo do derrame da Deepwater Horizon e do seu impacto, especialmente depois do fluxo de petróleo ser interrompido e a tenção mundial se virar para outras coisas.

@ NatureSteve Murawski, conselheiro chefe de ciência do Serviço Nacional de Pescas Marinhas da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, lamenta a falta de dados sobre a Ixtoc I à medida que trabalham na resposta ao derrame da Deepwater Horizon, mas espera que os erros de há 30 anos não se repitam e que "o número de arrependimentos seja modesto quando escrevermos a história desta vez".

Quanto aos pescadores perto do local da Ixtoc I, estão bem conscientes do novo desastre que se desenrola a norte. Muitos temem que o petróleo chegue a eles e simpatizam com os que já estão a ser afectados. "Para mim é um problema para toda a humanidade", diz Castillo.

 

 

Saber mais:

Comando Unificado para o Derrame da BP

NOAA

Debate sobre impacto do petróleo disperso cada vez mais aceso

10 factos sobre o derrame no Mar das Caraíbas que preferíamos nem saber ...

A ciência dos dispersantes

Derrame de petróleo no Mar das Caraíbas pode ter consequências assustadoras

Desastre ambiental ameaça Golfo do México

 

 

Twitter simbiotica.orgFacebook simbiotica.orgFlikr simbiotica.orgYouTube simbiotica.orgClique para deixar de subscrever esta newsletter

Se não deseja voltar a receber o boletim News of the Wild clique aqui!!

 

simbiotica.org  |  Arquivo  |  Comentar  |  Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  @ simbiotica.org, 2010


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com