2010-06-07

Subject: Redução dos glaciares não se deve apenas ao Homem

 

Redução dos glaciares não se deve apenas ao Homem

 

Dificuldades em visualizar este email? Consulte-o online!

@ NatureO glaciar Grande Aletsch está doente. 

Ao longo do século XX o maior glaciar alpino, em Valais, Suíça, recuou mais de dois quilómetros e os 1500 glaciares menores do país não estão muito melhor.

Será tudo devido ao aquecimento global antropogénico? Segundo um estudo recentemente publicado não.

O estudo revela que cerca de metade da perda de glaciares por todos os Alpes suíços se deve a variabilidade climática natural, algo provavelmente verdadeiro também para os restantes glaciares do mundo.

"Isto tudo não põe em causa a actualidade e a gravidade das alterações climáticas antropogénicas de qualquer forma", diz Matthias Huss, glaciólogo da Universidade de Friburgo, Suíça, que liderou o estudo. "Mas o que observamos é que o actual recuo dos glaciares pode ser devida igualmente a variações climáticas naturais e ao efeito de estufa antropogénico."

"Esta é a primeira atribuição detalhada de forças climáticas conhecidas ao comportamento dos glaciares", diz Georg Kaser, glaciólogo na Universidade de Innsbruck, Áustria, que não esteve envolvido no estudo. "Dada a importância dos glaciares para o fornecimento local de água, trata-se de informação essencial."

Há muito que os investigadores suspeitavam que os glaciares respondiam sensivelmente a alterações climáticas naturais como as devidas à subida e descida rítmica das temperaturas das águas superficiais do Atlântico norte de cerca de 1°C a cada 60 anos, mais ou menos. Esta oscilação atlântica multidécada (AMO), conduzida por alterações na circulação oceânica, pensa-se que afecte fenómenos como os furacões atlânticos e a precipitação na Europa.

Na maioria dos locais, os registos históricos do recuo dos glaciares e do clima local são demasiado escassos para os investigadores isolarem o efeito deste ciclo natural do aquecimento devido à acção humana.

No entanto, nos Alpes suíços, relativamente bem documentados, Huss e a sua equipa conseguiram recolher cerca de 10 mil observações in situ feitas ao longo dos últimos 100 anos e construir modelos computorizados em três dimensões de 30 glaciares. 

Comparando uma série de degelos diários, acumulação de neve e leituras de volume de gelo e neve dos glaciares com um índice de utilização corrente da AMO, eles salientaram o impacto da variabilidade climática natural. Apesar do balanço individual de massa dos glaciares variar, a tendência a longo prazo global seguiu a pulsação da AMO.

Desde 1910, os 30 glaciares perderam um total de 13 quilómetros cúbicos de gelo, cerca de 50% do seu antigo volume. Breves períodos de ganho de massa durante fases frias da AMO nas décadas de 1910 e final dos 70 foram ultrapassadas por perdas rápidas durante as fases quentes da década de 40 e desde 1980, quando as temperaturas subiram e mais precipitação caiu sob a forma de chuva e não de neve.

Os cientistas acreditam que estas alterações se devem ao efeito combinado do ciclo natural e do aquecimento global antropogénico, que agora parece ter um papel mais importante do que no início do século XX.

 

A variedade climática natural deve ter conduzido a redução dos glaciares ao longo do século XX, diz Kaser. Por exemplo, a sua própria investigação sobre os glaciares do Monte Kilimanjaro na Tanzânia sugerem que a sua dramática recessão se deve essencialmente a flutuações multidécada na humidade do ar.

"A ideia generalizada de que o recuo dos glaciares se deve exclusivamente à subida das temperaturas do ar é uma simplificação excessiva", diz ele. "Os glaciólogos sabem há mais de 50 anos que os glaciares são sensíveis a um leque de variáveis climáticas, das quais nem todas têm relação com o aquecimento global."

Questões sobre o efeito do aquecimento global nos glaciares chegaram à primeira página no início do ano, depois de ter sido encontrado um erro na última avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), sediado em Genebra, Suíça, onde se afirmava erradamente que a maioria dos glaciares dos Himalaias iriam desaparecer até 2035. O escândalo daí resultante colocou a credibilidade do IPCC sob escrutínio e desencadeou uma revisão independente pelo InterAcademy Council de Amesterdão, que representa 15 academias de ciência nacionais.

Mas os cientistas não esperam que estas últimas descobertas sobre os glaciares suíços venham reacender a controvérsia. "Sem estudos como este, a ciência climática seria na realidade menos credível do que é", diz Martin Beniston, modelador do clima regional na Universidade de Genebra, que não esteve envolvido no estudo. 

"Problemas relacionados com o aquecimento global são devidos a uma subtil mistura de actividade humana e alterações naturais e estas novas descobertas são uma rara oportunidade de ilustrar a sua complexidade de uma forma compreensível. É uma questão de honestidade científica admitir que nem todos os efeitos das alterações climáticas são apenas o resultado do aumento de gases de efeito de estufa."

Beniston acrescenta que reconhecer o papel das alterações climáticas naturais não diminui o problema. "Mesmo que os gases de efeito de estufa contribuam apenas para a redução em 50% dos glaciares, nada é negligenciável." Apesar dos glaciares dos Himalaias poderem não ser tão vulneráveis como o relatório original do IPCC sugeria, os glaciares dos Alpes europeus podem perder até 90% até final do século, diz Kaser.

Os autores deste último estudo sugerem cautelosamente que uma alteração da fase da AMO pode ajudar o Grande Aletsch e outros glaciares alpinos nas próximas décadas, mas Beniston duvida. "Podemos vir a assistir a um abrandamento temporário mas temo que a longo prazo o ainda modesto efeito dos gases de efeito de estufa suplante qualquer alívio Atlântico." 

 

 

Saber mais:

UNEP Global Glacier Changes - Facts and Figures

World Glacier Monitoring Service

IPCC

IPCC admite erro em relação a glaciares dos Himalaias

Glaciares suíços recuam a velocidade alucinante

Glaciares com reduções recorde

Glaciares num mundo estufa

 

 

Twitter simbiotica.orgFacebook simbiotica.orgFlikr simbiotica.orgYouTube simbiotica.orgClique para deixar de subscrever esta newsletter

Se não deseja voltar a receber o boletim News of the Wild clique aqui!!

 

simbiotica.org  |  Arquivo  |  Comentar  |  Busca Contacte-nos  |  Imprimir  |  @ simbiotica.org, 2010


Return to Archives

Newsletter service by YourWebApps.com