2010-04-24

Subject: Retrato de um ano de pandemia

 

Retrato de um ano de pandemia 

 

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Faz um ano este mês que o mundo assistia com espanto à emergência de um novo vírus da gripe A, contra o qual a população global tinha pouca ou nenhuma imunidade, no México e nos Estados Unidos.

Nas semanas que se seguiram, o vírus da gripe suína H1N1 espalhou-se rapidamente por todo o mundo, levando a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar oficialmente a 11 de Junho de 2009 a primeira pandemia de gripe no espaço de 40 anos. A revista Nature analisou as lições aprendidas com o H1N1 e como elas vão ajudar os cientistas e as autoridades de saúde a lidar com a próxima pandemia de gripe.

Até que ponto a pandemia foi severa até à data?

A pandemia de 2009 não foi tão mortal como a de 1918. "A maioria das pessoas foi menos susceptível à infecção do que nas pandemias anteriores, menos susceptível a ficar doente se fossem infectados e tinham menos probabilidade de morrer se ficassem doentes", diz Marc Lipsitch, epidemiologista na Escola de Saúde Pública de Harvard em Boston, Massachusetts. 

Mas com a pandemia ainda em curso, podem passar anos até que tenhamos uma estimativa fiável do número de mortes que causou. Uma investigação, publicada no mês passado na revista PLoS Currents Influenza, por Cécile Viboud, do Instituto Nacional de Saúde Americano (NIH) em Bethesda, Maryland, sugere que a primeira onda pode ter sido mais severa do que foi perceptível.

Viboud testou diferentes abordagens para estimar a mortalidade causada pela gripe nos Estados Unidos, com as estimativas mais conservativas baseadas em registos médicos que indicavam gripe como causa da morte. Esta situação deve subestimar este número pois muitas mortes devidas à gripe não tiveram esse registo, sendo muitas vezes atribuídas a outros problemas, como doenças cardíacas ou diabetes.

Esta abordagem conservativa estima as mortes americanas por gripe em cerca de 7500 a 12 mil, menos de metade do número causado anualmente pelos vírus sazonais de gripe H1N1 e influenza B. Mas este método também revelou que o número de anos de vida perdidos foi cerca de um quarto maior do que o normal pois as mortes pandémicas de 2009 estavam desviadas para as faixas etárias mais jovens do que as da gripe sazonal.

De acordo com uma estimativa menos conservadora, baseada na comparação entre a mortalidade total durante a pandemia com a mortalidade no mesmo período em anos anteriores, ocorreram mais 44100 mortes, ultrapassando o número de uma época de gripe típica. Os anos de vida perdidos foram três a quatro vezes mais do que os da uma época de H3N2 virulento e cinco vezes mais do que os de uma época de H1N1 sazonal e B, o que é da mesma ordem de grandeza da gripe pandémica de 1968.

Porque motivo os mais idosos foram poupados?

Enquanto a gripe sazonal atinge principalmente os mais idosos e os mais jovens, a pandemia de 2009 foi diferente no facto de os mais afectados serem as crianças mais velhas e os jovens adultos. Investigações publicadas em Janeiro de 2010 na revista BMC Infectious Diseases relatam que mais de três quartos dos casos ocorreram em indivíduos com menos de 30, com um pico no grupo etário dos 10 aos 19 anos.

Estudos de seroprevalência, que seguem os anticorpos que reagem com o vírus, sugerem uma explicação para isto. Amostras serológicas obtidas em Inglaterra antes do início da pandemia mostram que os mais idosos tinham reacções de anticorpos mais intensas ao H1N1 que os jovens, provavelmente em resultado de exposições anteriores a estirpes com semelhanças com o novo vírus. Como o novo vírus pandémico ultrapassou as estirpes de gripe sazonais, a habitual época de gripe sazonal nunca se desenvolveu pelo que os mais idosos foram poupados a uma gripe A/H3N2 grave, que normalmente pesa fortemente contra os mais velhos.

Existirão novas vagas de infecção?

Provavelmente. Nas pandemias anteriores, as infecções e doença vieram em vagas ao longo de um período de vários anos e as últimas vagas são muitas vezes as piores. "Estamos num período pandémico de 2 a 5 anos e temos que continuar alerta", diz Lone Simonsen, perito em gripe no programa Research and Policy for Infectious Disease Dynamics (RAPIDD), uma colaboração entre o Centro Internacional NIH Fogarty e a directoria de ciência e tecnologia do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.

 

A longo prazo, o vírus H1N1 deve estabelecer-se como a estirpe dominante de gripe. Actualmente, a maioria dos novos casos de gripe são H1N1 pandémico, apesar de algumas estirpes de gripe sazonal B continuarem a circular, especialmente na Ásia. À medida que mais pessoas adquirirem resistência ao vírus pandémico, a sua virulência estabelecer-se-á ao nível da da gripe sazonal, que causa novas infecções apenas quando a genética do vírus muda anualmente.

Neste Inverno houve pouca gripe no hemisfério norte. Os surtos de gripe pandémica estão actualmente nas zonas tropicais das Américas, África e sudeste asiático, particularmente Tailândia e Singapura mas a níveis inferiores. Com a aproximação do Inverno no hemisfério sul, a questão da onda atingir outros países será respondida em breve.

Aprendemos alguma coisa com a pandemia de 2009?

O H1N1 foi uma forma rude de nos lembrar que as técnicas de fabrico de vacinas actuais são demasiado longas: cerca de seis meses desde a identificação do novo vírus à produção de quantidades dignas de nota de vacinas. Quantidades sérias de vacina só chegaram em Outubro passado, depois da primeira vaga ter passado durante o Inverno na Austrália e outros países do hemisfério sul, e em plena onda de Outono na maioria do hemisfério norte.

Também a vigilância terá que ser melhorada. Bons dados de seroprevalência são cruciais para tomar decisões informadas. Uma medida crucial da severidade de uma pandemia é a taxa de casos/fatalidades e para a obter são necessárias estimativas precisas de quantas pessoas foram infectadas mas só em Setembro último (cinco meses após o início da pandemia) os epidemiologistas começaram a ter esses dados.

Investigação clínica durante a pandemia, estudos para os melhores regimes de medicação, por exemplo, também foram lentos. Em vários países foram lançados apelos a propostas céleres mas comparados com os epidemiologistas e virologistas, os investigadores clínicos foram lentos a responder, em parte porque muitos estavam ocupados com a resposta de primeira linha. 

Anne Kelso, directora do Centro para Referência e Investigação sobre Gripe de Melbourne, Austrália, salienta outro problema: "Atrasos na obtenção de autorizações éticas foi outro impedimento, resultando em que a epidemia estava quase acabada quando alguns estudos puderam começar." 

 

 

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