2010-03-05

Subject: Biodiversidade: longe da vista, longe do coração

 

Biodiversidade: longe da vista, longe do coração

 

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Baiji @ BBCTem sido vastamente relatado que as espécies terrestres estão a enfrentar a sexta extinção em massa e que as actividades humanas são a causa.

O que é menos conhecido é que os humanos também são responsáveis por extinções desde há tempos históricos e pré-históricos recentes.

Nas Ilhas Britânicas, por exemplo, perdeu-se a maioria dos grandes animais nativos, em resultado directo da caça excessiva e da alteração de origem humana dos habitats. Quantos no Reino Unido considerariam linces, lobos ou pelicanos fauna nativa? Não têm memória cultural directa de qualquer dessas espécies e, mais cedo ou mais tarde, as comunidades esquecem a existência de espécies que costumam existir no seu ambiente.

A percepção local das condições ecológicas do passado muda ao longo do tempo, à medida que os membros mais velhos morrem, pois a informação rigorosa não é passada de geração em geração. Ao longo do tempo, condições ambientais mais e mais degradadas podem, por isso, ser consideradas "normais". Este fenómeno social é conhecido por "síndroma de alteração de bases".

A existência do síndrome de alteração de bases tem sido largamente debatida, no entanto poucos estudos poucos estudos têm investigado a taxa a que as comunidades podem esquecer as alterações ambientais do passado recente.

Isto é particularmente importante para a conservação porque frequentemente o conhecimento ambiental das comunidades locais é a única informação disponível para a avaliação do estatuto das espécies raras ou para reconstruir as extinções recentes e as alterações ambientais.

Por exemplo, entrevistas com os aborígenes dos desertos centrais da Austrália revelaram que os mamíferos nativos, como o bandicoot pés de porco, que se pensava ter desaparecido no início do século XX, na realidade sobreviveu até à década de 50 mas, tal como as extinções com origem humana continuam a ocorrer, o verdadeiro nível do nosso impacto no ambiente também continua a ser esquecido.

A extinção recente mais significativa foi o desaparecimento do golfinho do rio Yangtze, o conhecido baiji, o primeiro grande mamífero a desaparecer em mais de 50 anos. Em tempos venerado como uma princesa reencarnada, esta espécie sofreu um declínio drástico da população no final do século XX, principalmente em resultado dos níveis insustentáveis de mortes acidentais causadas pelas artes de pesca.

Apesar dos repetidos apelos para uma intervenção internacional para a sua conservação, no final da década de 90 estimava-se que restassem apenas 13 animais. Participei no senso alargado dos baijis feito em 2006 que não encontrou evidências de golfinhos sobreviventes no Yangtze. Em 2007, a espécie foi declarada provavelmente extinta.

A perda do baiji é apenas uma parte da degradação ambiental a uma escala inimaginável do rio Yangtze. Até recentemente, o rio também foi lar do peixe-remo do Yangtze Psephurus gladius, o maior peixe de água doce do mundo com os adultos a tingirem os 7 metros de comprimento.

 

Os peixes-remo costumavam ser capturados comercialmente no Yangtze mas a pesca excessiva e a construção de barragens levaram ao colpaso da população e apenas três indivíduos foram capturados na última década. A espécie pode já estar extinta.

Em 2008, voltei ao Yangtze para participar num senso por entrevista das comunidades pesqueiras. Estávamos interessados em descobrir se os pescadores locais, que passam a maior parte do seu tempo no rio, saberiam da existência de algum baiji sobrevivente. Tristemente, pouco ou nada sugere que isso seja verdade.

Mas à medida que realizámos a nossas entrevistas fizemos uma descoberta surpreendente. Os mais velhos falam-nos do declínio histórico do baiji e do peixe-remo, da forma como antes eram capturados frequentemente e do seu sabor mas os pescadores mais jovens das mesmas comunidades não só nunca tinham visto um baiji ou um peixe-remo, como nunca tinham ouvido falar deles.

Estas espécies emblemáticas, um golfinho e um peixe gigante, só tinham desaparecido há um par de anos e tinham sido cultural e comercialmente importantes no passado recente mas o o conhecimento local sobre eles já estava a desaparecer muito rapidamente.

Estimámos que mais de 70% dos pescadores com idade abaixo dos 40 anos ou que tivessem começado a pescar depois de 1995, não tinham a menor ideia do que era um peixe-remo. 

As nossas descobertas sugerem que logo espécies, mesmo de megafauna, deixam de ser encontradas regularmente, imediatamente começam a ser esquecidas. Ficam verdadeiramente "longe da vista, longe do coração".

É o insulto final para o baiji, não só se permitiu que a espécie se extinguisse, esquecida pela comunidade conservacionista até que fosse tarde demais, como agora está a ser esquecido, mesmo na própria China.

A conservação no Yangtze permanece uma prioridade urgente, pois apesar do baiji, do peixe-remo e muitos outros, provavelmente já estarem perdidos, outras espécies como o boto do Yangtze também estão em perigo eminente de extinção. 

Mas seremos capazes de agir em tempo para salvar este boto, ou esta espécie, como muitas outras, acabará completamente esquecida?

Samuel Turvey, autor desta crónica, é investigador para a Zoological Society de Londres (ZSL).

 

 

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