2010-02-16

Subject: Cientistas estão a perder terreno para a desinformação dos cépticos climáticos

 

Cientistas estão a perder terreno para a desinformação dos cépticos climáticos

 

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Cocktail hour at the national tea party convention

Crónica de Joss Garman, activista do clima para o Greenpeace Reino Unido, publicada no jornal inglês The Guardian:

Há um movimento incrivelmente poderoso que se opõe à acção contra as alterações climáticas. Sem dúvida teve mais influência no resultado das negociações climáticas de Copenhaga que muitos países em conjunto: Obama sabia, por exemplo, que se assinasse alguma coisa que resultasse em cortes significativos na poluição que causa aquecimento global sofreria um sério golpe no seu exército de activistas e aliados no senado.

A capacidade deste movimento de fazer os democratas pagar um preço político sério (veja-se o que ajudam a conseguir no Massachusetts, onde o candidato democrata perdeu uma eleição recentemente) mostra o que o activismo cru realmente é. Este movimento que pretende mudar o mundo é conhecido por Tea Party e está associado a senadores da ala direita, militaristas e aliados da Fox News, todos forçando a linha do cepticismo climático.

Ao longo dos últimos anos, enquanto activistas como eu próprio tentavam criar uma argumentação racional válida, eles montaram um poderosa campanha de desinformação. Nas últimas semanas testemunhámos um acelerar da campanha, que se tornou numa espécie de guerra assimétrica global, com críticas ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC) pelas suas alegações sobre a velocidade a que os glaciares dos Himalaias estão a derreter, ataques pessoais contra o seu presidente Rajendra Pachauri e um assediar persistente dos cientistas climáticos e dos seus revisores.

Os relatórios científicos altamente considerados do IPCC, e mesmo o valor da ciência por si própria, estão agora sob assalto de um leque variado de ideólogos, humoristas e vozes com interesses privilegiados, todos com a intenção de acabar com a transição para uma economia de energia limpa.

É este tipo de táctica que, com a campanha do barco Swift questionando o seu serviço militar, ajudaram a derrubar a campanha presidencial do senador John Kerry em 2004. O problema foi que Kerry pensou que ter razão seria suficiente e a sua resposta foi ser fotografado a fazer wind-surf. Já Obama, quando em 2008 enfrentou uma campanha difamatória semelhante feita com base nos comentários do seu antigo pastor, ele sabia que ter razão não seria suficiente e fez o seu discurso em Filadélfia para corrigir a situação e o resto é história.

Ainda há tempo para o IPCC ser Obama em 2008 e não Kerry em 2004, mas vai ser preciso uma resposta muito mais forte do que aquela a que temos assistido até agora. Agora há um perigo real de que quando o próximo relatório de avaliação das alterações climáticas do IPCC for publicado, os órgãos de comunicação social sintam a necessidade de gastar 30% do seu tempo a recordar um erro inconsequente sobre os glaciares no seu relatório anterior, porque a verdadeira batalha é sobre confiança e percepção.

Nestas duas frentes não há dúvida que os cientistas estão a perder terreno. Todos precisamos que o IPCC se foque urgentemente em recuperar a confiança e que a comunidade científica no seu todo se venha defender a si própria com vigor.

Os comentadores cépticos influentes podem dar-se ao luxo de apenas atirar lama e ver o que 'cola' porque têm o que o antigo primeiro-ministro inglês Stanley Baldwin designou em 1931 como "poder sem responsabilidade", a mesma dinâmica que permitiu a Sarah Palin criar os mitos que distorceram o debate sobre o sistema de saúde americano pois os da oposição não enfrentam o mesmo escrutínio que quem está no sistema. É por isso que no interior das redacções o equilíbrio da legitimidade foi tão alterado que o era consensual nas alterações climáticas está novamente em debate, apesar das evidências sólidas que o sustentam.

Cépticos climáticos prolíficos, como Ian Plimer, James Delingpole e Christopher Booker, que deliberadamente espalham 'inverdades' sobre as alterações climáticas podem estar errados 99% das vezes e certos menos de 1% e ainda assim ganharem a discussão porque o campo de batalha não está nivelado. Da mesma maneira, o IPCC pode estar certo 99% das vezes e errado menos de 1% das vezes e ainda assim perder.

 

O movimento climático seria muito ingénuo em subestimar os danos que estão a ser feitos nestas últimas semanas. Um jornalista inglês extremamente influente disse-me que os editores estão a sofrer pressões significativas para adoptar uma postura mais constrita sobre a ciência climática pois estão a receber diariamente pilhas de emails e telefonemas exigindo uma linha mais céptica, mas poucas mensagens de apoio à visão científica consensual.

Na internet a situação ainda é mais grave, pois a maioria dos blogues conservadores são cépticos climáticos e alegam mesmo dividir os chamados governos-sombra. 

A comunidade científica, com honrosas excepções, continua a lidar mal com a situação pois não pediram desculpa pelos seus erros e não vieram defender com unhas e dentes a robustez da ciência climática mas em última análise, como John Kerry aprendeu e Obama dominou na sua campanha, um tipo de resposta totalmente diferente será necessária. Uma resposta que fale menos a linguagem das "partes por milhão de dióxido de carbono atmosférico" e mais a linguagem dos valores e preocupações diários das pessoas.

Muitas vezes pensei que era estranho e problemático que as alterações climáticas se tenham tornado uma questão de cultura de guerra. Certo ou errado, se "acredita" na ciência das alterações climáticas parte-se do princípio que lê jornais [ingleses] como o The Guardian ou o Independent, que apoia o casamento gay e se opõe à guerra no Iraque. Mas obviamente que a polarização da sociedade sobre esta questão foi completamente manufacturada por aqueles que visam pintar as alterações climáticas como a última obsessão liberal.

É por isso que as alterações climáticas ficaram associadas à austeridade e à regulamentação, quando podiam estar igualmente associadas à oportunidade económica e à segurança nacional. Afinal, lidar com as alterações climáticas irá reduzir a nossa dependência de petróleo proveniente de regimes estrangeiros instáveis e envolve o estabelecimento de um mercado global de muitos triliões de euros, uma verdadeira corrida às armas global por tecnologia verde.

Neste momento o aquecimento global está associado ao aumento dos custos de energia e ao risco de cortes mas, de facto, o isolamento das casas de todos nós significaria uma redução da factura energética, a menos 'pobres energéticos' e ao aumento da segurança energética. É uma causa que devia ser abraçada pelas alas esquerda e direita de igual forma.

Nós, activistas climáticos, precisamos de perguntar a nós próprios como chegamos a este estado de coisas tão incongruente. O cépticos mais zelosos, uma subcultura de teóricos da conspiração paranóicos, alegam falar em nome do pensamento independente quando na realidade são as tropas de choque de uma forma mais insidiosa e chocante de censura, que bloqueia a verdade com a ideologia e os interesses das grandes corporações do carbono.

As alterações climáticas são reais e causadas pelo homem, a causa da forma como lidar e combatê-las não passa de senso comum. 

 

 

Saber mais:

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Cepticismo climático cresce no Reino unido

Críticas inundam IPCC

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