2010-02-01

Subject: Algo cheira mal no estado da paleontologia

 

Algo cheira mal no estado da paleontologia

 

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Uma colecção de corpos em decomposição está a desafiar a interpretação do registo fóssil e pode mesmo forçar os investigadores a repensar a evolução dos vertebrados.

Um pressuposto subjacente à interpretação de muitos fósseis é que à medida que os animais apodrecem podem perder as suas características distintivas numa sequência aleatória, diz a equipa de paleontólogos da Universidade de Leicester, Reino Unido. 

Agora, ao estudar a forma como os animais se decompõem, esta equipa veio demonstrar que esse pressuposto está errado.

"A questão é: uma característica não está presente porque nunca existiu ou a característica estava lá e desapareceu ao apodrecer. Em casos onde só temos estruturas resistentes à decomposição temos que ter muito cuidado", diz o autor do estudo Mark Purnell.

Numa série de experiências publicadas online pela revista Nature, Purnell e os seus colegas Robert Sansom e Sarah Gabbott descobriram que as características que são mais importantes para decidir onde colocar um animal na árvore filogenética são as primeiras a desaparecer. Em termos práticos, isso significa que se alguma coisa entra em decomposição parece regredir ao longo da sua filogenia e descer na árvore filogenética (veja o vídeo Nature).

Esta decomposição não ao aleatória pode não ter sido devidamente tida em conta por alguns investigadores. "Em alguns organismos que foram interpretados houve demasiada especulação e os dados foram esticados para além do que é cientificamente aceitável", diz Purnell.

Philippe Janvier, paleontólogo do Museu de História Natural de Paris, concorda. "Alguns fósseis foram claramente demasiado interpretados."

A descoberta tem relevância particular para os fósseis dos cordados antigos, animais que a característica notocorda em algum ponto da sua vida. Estes animais forneceram a única informação directa sobre a origem dos vertebrados mas como muitos deles não têm esqueleto rígido, o nosso conhecimento deles provém maioritariamente de fósseis raros que preservaram tecidos moles, cuja interpretação é plena de dificuldades.

Apesar do seu estudo estar centrado nos cordados, os investigadores dizem que um processo semelhante pode estar a ocorrer noutros fósseis classificados através do estudo de tecidos moles preservados. Os dados preliminares recolhidos por Purnell e os seus colegas mostra que esta decomposição ordenada pode ser "generalizada".

Os cordados modernos são um filo vasto de animais, incluindo três subfilos: os cefalocordados com animais semelhantes a peixes como o anfioxo, os urocordados como as ascídias e os vertebrados com lampreias e humanos, por exemplo. 

Para ter uma ideia da forma como os fósseis dos cordados ancestrais podem ser interpretados, Purnell e os seus colegas mataram anfioxos adultos Branchiostoma lanceolatum e lampreias juvenis Lampetra fluviatilis para os estudarem em vários pontos durante a sua decomposição.

 

A equipa descobriu que à medida que estes animais modernos se decompõem, as características que evoluíram mais recentemente e que, portanto, os distinguem dos seus ancestrais, apodrecem primeiro. As últimas características a decompor-se são coisas como a notocorda.

Isso significa que à medida que se decompõem, a lampreia e o anfioxo parecem descer das suas posições no topo da árvore filogenética para baixo em direcção à versão ancestral da espécie e eventualmente parecem-se com o ancestral comum a todos eles.Clique para ver maior

A equipa diz que as suas descobertas também se aplicam a fósseis chave que foram descritos como cordados primordiais, como o Metaspriggina e o Cathaymyrus. Estes fósseis não podem ser classificados com certeza como cordados ou vertebrados ancestrais, dizem eles, pois podem na realidade ser os vestígios decompostos de ambos.

No ano passado, Purnell e Philip Donoghue, paleontólogos da Universidade de Bristol, escreveram um artigo alertando para os perigos de não ter em conta a decomposição quando se interpreta fósseis. Estas últimas evidências apoiam as suas preocupações e é claramente necessário mais cuidado, dizem eles.

"Vai certamente irritar muitos paleontólogos que interpretaram os fósseis de forma muito descontraída", diz Donoghue. "Uma série de fósseis que pensámos serem vertebrados primitivos pertencem agora ao caixote do lixo e não nos dizem nada sobre a evolução das características dos vertebrados."

Apesar de Purnell discordar que existam fósseis que sejam completamente inúteis, Janvier também diz que alguns fósseis "vão ter que ser postos de lado". 

 

 

Saber mais:

Universidade de Leicester - Paleobiologia

 

 

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