2009-12-25

Subject: Mark Lynas: Como sei que a China destruiu o acordo? Eu estava na sala ...

 

Mark Lynas: Como sei que a China destruiu o acordo? Eu estava na sala ...

 

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Copenhaga foi um desastre, todos concordamos com isso, mas o que realmente aconteceu está em perigo de se perder na voragem das recriminações: a verdade é que a China destruiu as conversações, humilhou intencionalmente Barack Obama e insistiu que um "acordo" terrível acontecesse para que os líderes ocidentais ficassem com a culpa. Como é que sei isto? Porque estava na sala e assisti enquanto estava a acontecer.

A estratégia da China foi simples: bloquear as negociações abertas durante duas semanas e garantir que um acordo feito à porta fechada desse a entender que o ocidente tinha deixado ficar mal os mais pobres novamente.

E claro que as agências humanitárias, movimentos da sociedade civil e grupos ambientalistas todos morderam o isco. O falhanço foi "o resultado inevitável da recusa dos países ricos em partilhar a responsabilidade de forma justa e adequada", disse a Christian Aid. "Os países ricos agrediram os países em desenvolvimento", dizia o irritado porta-voz da Friends of the Earth International.

Tudo muito previsível mas o completo oposto da verdade. Mesmo George Monbiot, escrevendo no Guardian, cometeu o erro de culpar unicamente Obama mas eu vi Obama a lutar desesperadamente para salvar um acordo e a delegação chinesa a recusar vezes sem conta. Monbiot citou o delegado sudanês Lumumba Di-Aping, que denunciou o acordo de Copenhaga como "um pacto suicida, um pacto de incineração, para manter o domínio económico de alguns países".

O Sudão, no entanto, foi um fantoche da China nas conversações, um dos vários países que permitiu que a delegação chinesa não tivesse que lutar as suas batalhas nas sessões abertas. Foi uma situação perfeita, a China esventrou o acordo por trás da cortina e depois deixou os seus acólitos criticarem-no em público.

Mas o que realmente se passou na última sexta-feira à noite, com os chefes de estado de duas dúzias de países reunidos à porta fechada, foi diferente. Obama esteve à mesa várias horas, sentado entre Gordon Brown e o primeiro-ministro etíope Meles Zenawi. O primeiro-ministro dinamarquês presidiu e ao seu lado estava Ban Ki-moon. Provavelmente só 50 ou 60 pessoas, incluindo os chefes de estado, estavam na sala. Eu fazia parte de uma das delegações.

O que assisti foi profundamente chocante: o primeiro-ministro chinês Wen Jinbao não se dignou vir à sala pessoalmente, enviando um funcionário de segunda para se sentar frente ao próprio Obama. O desrespeito diplomático foi óbvio e brutal, tal como as implicações práticas, várias vezes os mais poderosos chefes de estado mundiais tiveram que ficar à espera que o delegado chinês telefonasse aos seus "superiores".

Digo aos que culpam Obama e os países ricos em geral, o seguinte: foi a China que insistiu que as metas dos países industrializados, anteriormente acordadas em 80% até 2050, fossem retiradas do acordo. Angela Merkel, Kevin Rudd, Lula da Silva, todos salientaram a falta de lógica desta posição, porque não podiam os países ricos anunciar este corte unilateral? Os chineses disseram que não e todos cederam. Agora compreendemos porquê, porque a China apostou, correctamente, que Obama levaria com a culpa pela falta de ambição do acordo.

China, apoiada por vezes pela Índia, continuou a remover todos os números que interessavam: 2020 como o pico de emissões, foi removido e substituído por uma linguagem vaga sugerindo que as emissões deviam atingir o pico "o mais rápido possível", a meta a longo prazo de redução em 50% de emissões até 2050 também foi removida. Com excepção da Índia e da Arábia Saudita, ninguém o queria, tenho a certeza de que se os chineses não estivessem na sala teríamos deixado Copenhaga com um acordo que os ambientalistas celebrariam com champanhe.

Mas como conseguiram eles levar a sua avante? Primeiro, estavam numa posição negocial extremamente forte, a China não precisava de um acordo. Por outro lado, os líderes ocidentais, mas também Lula da Silva, Zuma e Calderón entre muitos outros, estavam desesperados por um resultado positivo. Obama precisava de um acordo forte mais que ninguém, os Estados Unidos confirmaram a oferta de $100 mil milhões para adaptação dos países desenvolvidos e colocaram reduções sérias na mesa pela primeira vez (17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020), e estavam preparados para subir a parada.

 

Acima de tudo, Obama precisava de ser capaz de demonstrar ao Senado que podia colocar a China num quadro de regulamentação climática, para os senadores conservadores não argumentarem com o prejuízo da economia americana a favor da chinesa. Esta situação fortaleceu a mão da China, tal como a completa falta de pressão política da sociedade civil tanto na China, como na Índia. 

Com o acordo esventrado, a sessão dos chefes de estado terminou com a batalha final entre o delegado chinês que insistiu na remoção da meta dos 1,5ºC tão querida dos pequenos estados-ilha e nações baixas que têm mais a perder com a subida do nível do mar. O presidente Nasheed, das Maldivas, apoiado por Brown, lutou valentemente para salvar este número crucial, que acabou por permanecer mas rodeado de linguagem que o torna praticamente sem significado. E estava feito. 

Tudo isto coloca a questão: qual é o jogo da China? Porque motivo não só rejeita as metas por si só mas também não permite que qualquer outro país assuma metas vinculativas? A China quer enfraquecer o regime de regulamentação climática agora para evitar o risco de ser chamada a ser mais ambiciosa daqui a uns anos.

Isso não significa que a China não esteja a levar a sério o aquecimento global, é forte tanto em energia solar como eólica, mas o seu crescimento e crescente domínio político e económico é baseado no carvão barato. A China sabe que está a tornar-se uma superpotência incontestada, como se viu em Copenhaga. A sua economia baseada no carvão duplicou a cada década e o seu poder aumenta concomitantemente. Os seus líderes não vão alterar esta fórmula mágica a não ser que tenha mesmo que ser. 

Copenhaga foi muito pior que apenas outro acordo mau porque ilustrou uma profunda alteração na geopolítica global. Este está rapidamente a tornar-se o século da China mas a sua liderança mostrou que gestão ambiental multilateral não é a sua prioridade, sendo vista antes como um empecilho à liberdade de acção da nova superpotência. 

Deixei Copenhaga mais descoroçoado do que me sentia há muito. Depois de toda a esperança e entusiasmo, da mobilização de milhares, a onda de optimismo bateu contra a rocha dos poderes políticos globais, caiu e retirou-se. 

 

 

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