2009-12-20

Subject: Copenhaga não selou o acordo mas pode ter selado o caixão

 

Copenhaga não selou o acordo mas pode ter selado o caixão

 

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Os maiores poluidores do mundo, os que estão a alterar drasticamente o clima, reuniram-se em Copenhaga para anunciar que vão continuar como até aqui, desafiando todos os alertas científicos. Não selaram o acordo, selaram o caixão das ilhas mais baixas da Terra, dos seus glaciares, do pólo norte e de milhões de vidas.

Os que observaram esta conferência de olhos abertos não estão surpresos. Todos os dias, soluções inteligentes e práticas que poderiam reduzir as nossas emissões de gases de efeito de estufa foram apresentadas pelos cientistas, países em desenvolvimento e ambientalistas, tendo sido sistematicamente vetadas pelos governos da América do norte e da Europa.

Vale a pena recordar algumas das ideias que foram sumariamente recusadas, porque quando o mundo resolver encontrar uma solução real vamos ter que as ir buscar novamente.

Ideia descartada número um: Tribunal Internacional do Ambiente.

Qualquer redução proposta em Copenhaga foi voluntária. Se um governo decidir não a seguir nada vai acontecer, excepto aquecimento desastroso. Afinal o Canadá comprometeu-se a reduzir as suas emissões sob a égide de Quioto e depois aumentou-as em 26% e não houve consequências.

Copenhaga pode originar uma centena de Canadás.

A corajosa delegação boliviana, que tem visto os seus glaciares derreterem a uma velocidade alucinante, objectou. Disseram que se os países querem seriamente reduzir as suas emissões, esses cortes têm que ser policiados por um tribunal internacional do ambiente com o poder de punir quem colocar em perigo o nosso clima comum.

Isto não parece impraticável pois quando os nossos líderes realmente se preocupam com alguma coisa, como o comércio, fazem-no em dois tempos. A Organização Mundial do Comércio multa e sanciona países severamente se, por exemplo, seguem leis de direitos rígidas. Será um clima seguro menos importante que uma marca registada?

Ideia descartada número dois: Deixar os combustíveis fósseis enterrados.

Uma incrível hipocrisia da cimeira foi apontada pelo presidente da organização ambientalista Friends of the Earth, Nnimmo Bassey e pelo escritor ambientalista George Monbiot. Os governos do mundo dizem que querem reduzir drasticamente a utilização de combustíveis fósseis mas ao mesmo tempo estão entusiasticamente a escavar qualquer combustível fóssil que encontram e continuam em busca de mais. 

Têm um extintor numa mão e um lança-chamas na outra, mas só um destes instintos pode prevalecer. Um estudo publicado este ano na revista Nature mostrou que apenas podemos usar 60% de todo o petróleo, carvão e gás que já descobrimos se queremos permanecer abaixo do limiar do aquecimento descontrolado.

Assim, o primeiro passo racional de um acordo climático seria uma moratória imediata na busca de mais combustíveis fósseis e planos justos para decidir que parte do stock existente deixaremos por utilizar. Esta opção não foi sequer discutida pelos nossos líderes.

Ideia descartada número três: Dívida climática.

Os mais ricos têm sido responsáveis por 70% dos gases de efeito de estufa que estão na atmosfera, mas 70% dos efeitos estão a ser sentidos nos países em desenvolvimento. A Holanda pode construir vastos diques para impedir as inundações mas o Bangladesh só pode afogar-se. Há uma relação inversa cruel de causa e efeito em que o poluidor não paga, criando-se uma dívida climática.

Nesta cimeira, pela primeira vez, os países mais pobres levantaram-se em protesto. O seu negociador-chefe salientou que as compensações oferecidas "não chegam para pagar os caixões". O cliché de que o ambientalismo é a ideologia de uma pessoa rica teve aqui o seu último fôlego de CO2. Como disse Naomi Klein: "Nesta cimeira o pólo do ambientalismo deslocou-se para sul."

Já usámos a nossa parte de gases de efeito de estufa e ainda mais. Mas os Estados Unidos e a Europa descartaram a ideia da dívida climática logo à partida. Como pode um acordo duradouro surgir se ignorarmos este princípio básico da justiça? Porque motivo os mais pobres devem restringir-se quando os ricos recusam faze-lo?

 

Um acordo baseado nestas ideias reais podia na verdade arrefecer a atmosfera mas as alternativas defendidas em Copenhaga pelos mais ricos (créditos de carbono, compensações de carbono, captura de carbono) não o conseguirão porque não passam de um placebo. Os que dizem que as soluções reais são "irrealistas" não parecem compreender que as suas alternativas ainda o são mais: continuação da civilização num mundo cujos processos naturais estão rapidamente a entrar em colapso.

Ao longo de todas as negociações, os estados-ilha com relevo baixo agarraram-se a estas ideias reais como a um salva-vidas, pois estas são a única forma de salvar os seus países da subida do nível do mar. Foi extraordinário observar os seus representantes forçados a pedir pela sua própria existência, com persuasão, ciência, hinos de amor pela sua terra. Mas foram todos ignorados.

No entanto, as suas (e de muitos outros) ideias descartadas mostram mais uma vez que o aquecimento global antropogénico pode ser evitado. Os planos intelectuais existem, tal como os tecnológicos.

Haveria sacrifícios, sim, mas consideravelmente menos do que os nossos avós nas suas lutas mais duras. Teremos que pagar impostos mais elevados e voar menos para dar o salto para um mundo de energias renováveis mas ainda seremos capazes de viver em abundância onde estamos quentinhos, bem alimentados e livres. Os únicos que perderão serão as companhias petrolíferas e as ditaduras que baseiam o seu poder no petróleo.

Ainda assim, os nossos políticos não escolheram esta percurso são, optaram pela inércia, impostos baixos e dinheiro do petróleo hoje em vez da sobrevivência amanhã.

A verdadeira face do sistema actual, e de Copenhaga, pode ser vista nas ideias salva-vidas que foram tão casualmente deitadas para o caixote do lixo. 

 

 

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