2009-10-04

Subject: Outra verdade inconveniente? O dilema maltusiano do crescimento populacional

 

Outra verdade inconveniente? O dilema maltusiano do crescimento populacional

 

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Em 2050 o mundo terá cerca de nove mil milhões de pessoas, isso se o crescimento populacional abrandar nos países em vias de desenvolvimento.

Actualmente, pelo menos mil milhões de pessoas passam fome ou estão cronicamente mal-nutridas. Simplesmente para manter esse triste estado de coisas seria necessário desflorestar mais 900 milhões de hectares de terra, segundo Pedro Sanchez, director do Programa de Agricultura Tropical e Ambiente Rural do Instituto da Terra da Universidade de Columbia.

As más notícias para além do impacto sobre pessoas, plantas e animais desse tipo de desflorestação é que não há assim tanta terra disponível. quando muito, seríamos capazes de acrescentar 100 milhões de hectares aos 4,3 mil milhões já cultivados por todo mundo.

"A agricultura é o principal motor da maioria dos problemas ecológicos do planeta", diz o economista Jeffrey Sachs, director do Instituto da Terra. "Estamos literalmente a devorar as outras espécies do planeta."

Sachs fez o seu comentário num simpósio realizado pelo instituto sobre a forma de melhorar a agricultura para enfrentar o crescente desafio de alimentar o mundo e, ao mesmo tempo, combater as alterações climáticas e impedir a perda de diversidade, entre outras questões relacionadas.

A agricultura, graças à desflorestação, óxido nitroso dos campos e metano produzido pelo gado e arrozais, é responsável por um terço das emissões globais de gases de efeito de estufa devidas à actividade humana, tornando as emissões resultantes do transporte de alimentos (as milhas alimentares) um "erro de arredondamento", refere o ecologista Jonathan Foley, director do Instituto do Ambiente (IonE) da Universidade do Minnesota. A pastagem já se tornou o ecossistema dominante do planeta, acrescenta ele, e os humanos empregam directamente cerca de 40% da superfície do planeta. "Muito pouco disso é urbano."

Para além disso, a agricultura é responsável por pelo menos 85% do consumo humano de água, uma preocupação crescente com a redução dos aquíferos e as perturbações hidrológicas devidas às alterações climáticas.

Pelos cálculos de Sanchez, os humanos usam actualmente perto de 171 milhões de toneladas de azoto para fertilizante todos os anos, muito do qual acaba a poluir lagos, rios e mesmo o oceano. Mas não é só a chamada agricultura orgânica que está a contribuir para isso: a lixiviação da nitratos para os corpos de água pode ser proveniente do estrume, como na Holanda, ou do excesso de fertilizantes, como no Iowa. O resultado, esse é sempre o mesmo: zonas mortas.

Então como pode a agricultura ser intensificada de forma a alimentar a população crescente ao mesmo tempo que temos estas preocupações ambientais? De forma simples, temos que aumentar a produtividade das terras existentes.

Isso foi o que Norman Borlaug conseguiu nas décadas de 60 e 70 do século passado, com a Revolução Verde mas, "não pode existir progresso permanente na batalha contra a fome até que as agências que lutam pelo aumenta da produção de alimentos e as que lutam pelo controlo do crescimento da população se unam num esforço comum", disse Borlaug no seu discurso de aceitação do prémio Nobel da Paz em 1970. "O Homem não está a fazer tudo para controlar a sua reprodução e o resultado é que a taxa de crescimento populacional excede a taxa de produção de alimentos em certas áreas."

Essa contradição demográfica não será mais verdadeira em países da África subsaariana, onde uma população de 800 milhões tem que subsistir com produções de uma tonelada por hectare, um terço da produção nos países desenvolvidos e um nono da dos Estados Unidos, Europa, Austrália e outras partes do mundo ocidental. 

 

No entanto, "já produzimos alimentos suficientes para alimentar o mundo, há décadas que o fazemos", salienta a ecologista Catherine Badgley, da Universidade do Michigan em Ann Arbor, que liderou um estudo que avaliou se as práticas de agricultura orgânica por si só seriam capazes de produzir as necessidades nutricionais globais. "Temos que nos preocupar com a questão da acessibilidade."

Os mercados globais de alimentos, no entanto, falharam espectacularmente em 2008 quando os países encerraram as exportações em face da subida do preço dos cereais. "Os mercados internacionais de alimentos estão feridos de morte e a confiança neles entrou em colapso, as instituições globais falharam por não conseguirem manter a comida em circulação", diz Sachs.

Acrescente-se a isso o espectro do cultivo para a produção de biocombustíveis, reduzindo o terreno disponível para os alimentos, rações e fibras, diz Sachs e "os biocombustíveis vão ser um desastre não mitigado, é tão verdadeiro para para as aldeias africanas como para as cidades do Iowa". 

As variedades geneticamente modificadas, actualmente ilegais na maioria de África, podem aumentar a produção, diz Robert Paarlberg, do Wellesley College. Essa biotecnologia é "crítica para se alcançar a intensificação ecológica necessária a corresponder às necessidades humanas de alimentos à escala global", defende o agrónomo Ken Cassman, da Universidade do Nebraska–Lincoln. Ao mesmo tempo, a modificação genética não é uma panaceia, apesar das alegações de tolerância à seca e outras do género feitas por companhias como a Monsanto. "Tudo o que fizermos para reduzir a água que as plantas transpiram vai reduzir a produção."

Mas há muito espaço para melhoria através de meios convencionais: a aplicação direccionada de fertilizantes, por exemplo. O Instituto da Terra já triplicou a produção na sua Aldeia do Milénio no Quénia, mesmo durante uma seca devastadora na região. "Se queremos aumentar a produção, é melhor ter quintas de pequena e média dimensão", defende a ecologista da Universidade do Michigan Ivette Perfecto. "É uma agricultura de precisão."

Em última análise, uma pequena alteração na nossa dieta também pode fazer muito bem. A procura global de carne de vaca é uma forma pouco eficiente de obter proteínas, pois para além de poder ser pouco saudável é o principal motor da desflorestação e emissor de gases de efeito de estufa. "Não devíamos ter as nossas opções dietéticas como garantidas mas antes como algo que precisa de ser avaliado", diz Sachs, pelo menos se queremos ter alguma hipótese de evitar o destino previsto por Thomas Malthus.

"A sustentabilidade ainda é um problema por resolver, é o mesmo problema que Malthus identificou há 200 anos", continua Sachs. "Como vamos alimentar o planeta, abrandar o crescimento populacional e aumentar o nível de vida de todos ainda é uma questão em aberto." 

 

 

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