2009-09-18

Subject: Matar lobos pelo gozo

 

Matar lobos pelo gozo

 

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gray wolf

O seguinte editorial foi escrito por Randy Cohen a 8 de Setembro e é aqui traduzido e reproduzido por representar de forma tão rigorosa a nossa postura perante a caça ao lobo na zona das montanhas Rochosas que está em curso nos Estados Unidos. A simbiotica.org fez lembrar os argumentos a favor da retoma das corridas de morte em Portugal.

O Departamento do Interior decidiu que os lobos já aumentaram o seu efectivo o suficiente no oeste americano de forma a permitir a retoma parcial da sua caça. A caça ao lobo começou no Idaho a um de Setembro e no Montana começará a 15. 

Pode-se argumentar que há o direito a caçar para a obtenção de alimento e para a gestão das populações selvagens mas com certeza nenhuma das mais de 14 mil pessoas que compraram licenças para caçar lobos está interessada em sanduíches de lobo ou em reprodução em cativeiro: simplesmente gostam de caçar.

Mas será moralmente aceitável matar um lobo só pelo gozo da situação?

Sem qualquer surpresa, acredito que é errado infligir dor e morte desnecessariamente a uma criatura capaz de experimentar sofrimento. Ainda que esta convicção não nos obrigue a ser vegetarianos, exige-nos alterações significativas à forma como criamos os animais para a nossa alimentação e proíbe-nos caçar lobos como forma de entretenimento.

Para que fique claro, aceito todas a justificações práticas para a caça ao lobo e apenas repudio a ideia de que a caça é uma forma legítima de recreio. O ónus da prova recai sobre quem isso alega, o lobo não precisa de apresentar razões para não ser abatido no Montana, e não me parece que os caçadores tenham defendido bem o seu caso.

Alguns declaram que a caça é uma tradição muito apreciada na sua região ou família mas só porque algo tem sido feito no passado não justifica a sua repetição. Em tempos as mulheres não votavam mas isso é algo que abandonámos com todo o gosto. Outros alegam que a caça é uma actividade desafiadora. Sem dúvida, tal como fazer malabarismos com espadas vendado e bêbado. Nem tudo o que é difícil é desejável ou ético. Ser carteirista também é difícil.

Há pessoas que se sentem realizadas aprendendo a atirar, a seguir pistas, passeando pelas matas, quem sabe com os filhos, com os amigos para beberem umas cervejas ou apenas como oportunidade para evitar passar tempo com o cônjuge. Todas estas hipóteses podem ser formas muitos amenas de passar o tempo mas nenhuma delas precisa de terminar numa morte. Matar não é uma actividade de laser aceitável.

Que a caça é considerada, de modo geral, um desporto ninguém nega. A caçada ao lobo do Idaho teve destaque na secção de desporto do Los Angeles Times, numa secção chamada “Outposts — outdoors, action, adventure”, o que soa a filme de Jerry Bruckheimer. Mas a designação é curiosa pois nos outros desportos a participação é voluntária, enquanto aqui o lobo não tem voz.

 

E ainda que existam outros desportos criticados pela sua crueldade para os animais que são participantes involuntários, como as corridas de cavalos, pelo menos essas diversões podem ser amenizadas por reformas que melhorem o bem-estar animal. O que significaria isso na caça? Um super-lobo geneticamente modificado ensinado a ripostar? (outro filme de Bruckheimer) Seja como for, a má conduta numa arena não justifica outra.

Para além do que causa ao lobo, dor e morte, a caça danifica-nos, torna-nos imunes ao sofrimento.

Uma medida da sociedade é a forma como trata os fracos e vulneráveis, incluindo os animais, mesmo os considerados selvagens. Não é fácil ver a história humana como a marcha do progresso moral mas há alguma esperança na forma como as culturas ocidentais estão a olhar para os animais, não apenas como propriedade, como objectos mas como seres com direito a protecção legal.

Tínhamos margem para melhorar: ainda no século XVIII várias formas de tortura de animais eram divertimentos populares, como lutas de galos e de cães, atiçar ursos e texugos a animais menores, etc. O avanço das leis de protecção dos animais são motivo de orgulho. Os ingleses aprovaram a Acta de Richard Martin em 1822 para impedir o tratamento cruel e impróprio do gado, talvez a primeira legislação mundial sobre bem-estar animal. Em 1835, os mesmos ingleses baniram as lutas de cães e de galos, bem como o atiçamento de touros e ursos. Em 1911 foi ratificado o conceito de “causar sofrimento desnecessário”, logo é difícil ver a caça ao lobo por prazer como outra coisa que não um recuo em relação a um ideal.

Uma coligação de grupos conservacionistas iniciou uma acção judicial para recolocar o lobo sob a protecção da Acta das Espécies Ameaçadas e, por isso, acabar com as caçadas. Neste caso, a argumentação é ecológica e não moral mas seria igualmente gratificante ver o tribunal dar-lhes razão. E nem seria uma perda para os pretendentes a caçadores de lobos: se o juiz parar a caçada, os residentes do Montana que compraram licenças podiam exigir os seus $19 de volta. 

O apelo aos tribunais não foi atendido, a resolução permitindo a caça saiu a 9 de Setembro e a caça no Montana já teve início. O estado do Idaho tem uma quota de 220 e o Montana uma quota de 75 lobos que podem ser caçados por ano.

 

 

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