2009-06-06

Subject: Guerras e migrações podem ter moldado o comportamento humano

 

Guerras e migrações podem ter moldado o comportamento humano

 

 

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Explicações sobre a evolução do comportamento humano invocam frequentemente alterações biológicas cruciais e inovações culturais revolucionárias mas agora, dois artigos publicados na última edição da revista Science colocam a demografia, a dimensão, densidade e distribuição de uma população, no centro das atenções.

Samuel Bowles, etólogo do Instituto Santa Fé do Novo México, analisa o puzzle da forma como os humanos adquiriram esse comportamento altruísta para com indivíduos não relacionados sem igual, uma tendência que permitiu o Homem cooperar em grupos e, em última análise, colonizar o planeta. A resposta, paradoxalmente, pode ser a guerra.

Adam Powell, do University College de Londres, propõe que a demografia pode ser a responsável pela emergência do comportamento moderno do Homem, como as ferramentas sofisticadas, arte, ornamentação corporal e outras expressões transmitidas através da cultura do pensamento simbólico.

Quando todos num grupo são altruístas, diz Bowles, o grupo dá-se melhor no seu todo. No entanto, esses grupos são vulneráveis à invasão e exploração por borlistas que aceitam egoisticamente a benevolência dos altruístas sem dar nada em retorno. O egoísmo compensa e eventualmente substitui o altruísmo.

Mas há saídas para esta situação. Trabalhos teóricos anteriores tinham mostrado que o altruísmo dentro do grupo podia evoluir simultaneamente com o conflito entre grupos, ou seja, a guerra. Quando a ameaça de ser dizimado por outro grupo é alta, os custos para o indivíduo do altruísmo benéfico para o grupo podem ser ultrapassados pelo aumento da probabilidade do grupo, incluindo os altruístas, sobreviver.

Bowles vai buscar dados demográficos obtidos a partir de registos arqueológicos e etnográficos que, diz ele, indicam que o conflito entre grupos já era comum entre os nosso ancestrais caçadores-recolectores e estima que seja responsável por cerca de 14% de todas as mortes, muito mais do que a taxa de mortalidade que se observa nas guerras da história recente.

Nessas condições, Bowles mostra que mesmo os custos elevados do altruísmo benéfico para o grupo podem ter sido favorecidos. "É possível que uma natureza humana genuinamente altruísta possa ter evoluído e tenha dependido em parte da tendência para nos envolvermos em conflitos entre grupos", diz Bowles.

Uma característica notável do modelo de Bowles é que este se baseia no altruísmo geneticamente transmitido e, ainda mais controverso, na selecção de grupo genética, um tipo de selecção que favorece características que beneficiam o grupo, mesmo que tenham custos para o indivíduo. Muitos biólogos pensam que isso é, na prática, um processo impossível em grupos humanos porque não somos geneticamente suficientemente distantes ou diferenciados para a selecção de características de grupo poder ocorrer.

Mas Bowles pensa que os dados genéticos dos grupos de caçadores-recolectores mostram que eles cumprem esse critério e são compatíveis com a selecção genética de grupo. "Não digo que tenha sido isso que aconteceu mas é uma possibilidade a levar a sério."

Peter Richerson, da Universidade da Califórnia, Davis, tem as suas dúvidas. "Não há nada de errado com o modelo, só penso que ele aceita um número demasiado elevado de diferenciação genética." Seja como for, o modelo de Bowles aplica-se ainda melhor à abordagem preferida de Richerson, a selecção de grupo cultural, pois as diferenças culturais entre os diferentes grupos excedem largamente as diferenças genéticas.

Entretanto, Powell examinou o papel da demografia na emergência do comportamento humano moderno. "A tendência tem sido de procurar uma bala mágica genética que subitamente permitiu aos humanos florescer numa cultura moderna", diz o arqueólogo Stephen Shennan, co-autor do artigo. O seu trabalho desafia esta inferência e defende que a demografia, particularmente a densidade populacional e a migração, podem ser os determinantes chave de quando e onde o comportamento moderno se desenvolveu.

 

Evidências arqueológicas sugerem que as primeiras formas de ornamentação e arte simbólica podem ter surgido em África há 70-90 mil anos, mas desapareceram até ao final da Idade da Pedra, há 40-50 mil anos.

É improvável que a aquisição e perda de uma capacidade cognitiva possa explicar esses surtos transitórios de modernidade mas poderá a demografia? Populações pequenas podem facilmente perder capacidades e conhecimentos culturais, como aconteceu na Tasmânia nos últimos 8 mil anos, desde que se tornou uma ilha.

Para que o comportamento e cultura modernos possam emergir e persistir, as populações precisam de alcançar e manter uma certa densidade, o que levou os autores a analisar as densidades e migrações das populações históricas.

Eles também recorreram a análises genéticas que utilizaram DNA mitocondrial para estimar as populações humanas em diversos momentos e em diferentes regiões do mundo, como África há 100 mil anos e Europa há 45 mil anos, mais ou menos quando as evidências de modernidade começam a surgir.

Essas estimativas genéticas sugerem que a densidade populacional era comparável em ambas as regiões nas datas relevantes, o que cumpre as exigências demográficas necessárias para apoiar o comportamento moderno.

Chris Stringer, paleontólogo do Museu de História Natural de Londres, diz que o estudo de Powell é "um excelente trabalho", que formaliza ideias que ele próprio tem expressado. Ainda que não esteja convencido de que está tudo percebido, "é um modelo melhor do que um 'interruptor' biológico que causou o comportamento biológico". 

No entanto, Richard Klein, arqueólogo da Universidade de Stanford na Califórnia, diz que o estudo depende demasiado de modelos e esquece evidências arqueológicas importantes, como os vestígios de conchas e carapaças de tartaruga que ele pensa permitem detectar a densidade populacional humana.

Estas espécies eram capturadas como alimento, sendo os animais maiores os preferidos. Uma densidade populacional mais elevada significaria maior necessidade de alimentos, levando a que animais mais pequenos acabassem por ser caçados também, reduzindo o tamanho médio das conchas e carapaças de tartaruga. Análise desses vestígios, diz Klein, "não indicam diferenças no tamanho da população humana entre os locais que Powell et al. pensam indicar comportamento moderno  e os que pensam que não." 

 

 

Saber mais:

Samuel Bowles

Adam Powell

Stephen Shennan

Mark Thomas

 

 

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