2009-04-12

Subject: Produzir óvulos novos em ratos velhos

 

Produzir óvulos novos em ratos velhos

 

 

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Investigadores chineses anunciaram uma descoberta que desafia o credo canónico da biologia reprodutiva, que as mulheres nascem com um certo número de oócitos, que se vão reduzindo com a idade.

Num artigo publicado na revista Nature Cell Biology, a equipa chinesa relata ter encontrado precursores de oócitos em ratos adultos. Quando os investigadores transplantaram essas células para ratos esterilizados, eles foram capazes de produzir descendência, uma descoberta que se junta a um debate já em curso acerca dos limites da fertilidade em mamíferos.

"Dá-nos um suspeito", diz Jonathan Tilly, do Massachusetts General Hospital em Boston, que não esteve envolvido neste estudo mas já tinha publicado evidências de que se podem formar novos óvulos em ratos adultos numa série de artigos polémicos. Apesar deste trabalho não ter arrumado a questão, diz Tilly, representa uma adição para a "massa crítica de dados" que sugerem que ovários velhos podem produzir novos óvulos, uma descoberta que alguns consideram ter implicações na medicina da fertilidade.

Roger Gosden, da Universidade de Cornell em Nova Iorque, tem sido crítico deste tipo de investigação no passado. "É um artigo dramático", diz ele mas tem que ser replicado noutros locais. "Quero mais antes de engolir esta história." David Albertini, do Centro Médico da Universidade do Kansas em Kansas City, diz que não pensa que os dados apoiem as alegações do artigo devido a questões importantes relacionadas com a descendência e os métodos que usaram para derivar a linhagem celular. "É realmente difícil sabes o que se passa."

Ji Wu, da Universidade Jiao Tong em Xangai, relata que identificaram e isolaram uma pequena população de células da superfície de ovários de rato que têm a capacidade de se substituírem em caixa de Petri durante muitas gerações. Para além disso, partilham alguns marcadores proteicos que os cientistas buscam quando tentam identificar células germinativas primordiais, uma população celular que durante o desenvolvimento fetal produz todos os oócitos que uma fêmea irá ter durante o resto da vida. As células tipo estaminal, capazes de se substituírem e diferenciarem, foram extraídas e cultivadas tanto a partir de ovários de ratos recém-nascidos  como de ratos adultos.

Uma vez as linhagens celulares estabelecidas, os investigadores injectaram-nas com um vírus que forneceu o gene da produção da proteína verde fluorescente (GFP), permitindo que fossem seguidas ao microscópio. Wu injectou as células nos ovários de ratos que tinham sido tratados com químicos que danificam os óvulos existentes e deixam os ratos essencialmente estéreis. 

Cerca de 80% dos ratos que receberam o transplante celular deram à luz, independentemente de os transplantes provirem de ratos jovens ou adultos. Cerca de um terço dessa descendência era positiva para o gene GFP, apoiando a alegação de que os ratos tinham sido gerados directamente a partir das células doadas.

Os resultados parecem ir mais além que os do estudo de 2007 feito por Tilly, que mostrou que um transplante de medula óssea podia restaurar a fertilidade em ratos esterilizados quimicamente. Nesse estudo anterior, no entanto, a descendência era biologicamente relacionada com as suas mães e não com as células da medula óssea.

Demonstrar que a descendência proveio das células doadas é um salto crucial para este estudo mas nem toda a descendência apresenta o gene GFP. Um possível explicação, dizem os autores, é que nem todas as células transplantadas foram infectadas pelo vírus que transporta o gene GFP. Outra, diz Albertini, é que as células doadas não se tenham realmente transformado em oócitos.

Em vez disso, a quimioterapia pode não ter esterilizado completamente os oócitos originais nos ratos adultos ou o procedimento de transplante pode ter restabelecido ou protegido de alguma forma os oócitos envenenados nos ovários do hospedeiro. Em qualquer um dos casos, alguns dos oócitos originais podem ter recebido o gene GFP das células dadoras.

 

A equipa de Wu dá algumas provas contra esse tipo de transferência genética para os oócitos originais, mostrando que o vírus usado para infectar as células estaminais da linha germinativa é incapaz de infectar células de tecido ovárico saudável.

Mas o artigo não mostra que o mesmo é verdade após a quimioterapia ou que o vírus não consegue infectar outras populações de células estaminais. Para além disso, o artigo não menciona a percentagem de oócitos com brilho fluorescente que se desenvolveram nos ovários dos ratos tratados. Em resposta a uma lista de questões colocada por e-mail, Wu escreve que existiam oócitos GFP-negativos mas não fornece a razão de positivos para negativos. Ela considera que não é possível que descendência tenha sido produzida a partir de oócitos do hospedeiro ainda presentes no ovário.

Joshua Johnson, da Escola de Medicina de Yale em New Haven, Connecticut, que trabalhou com Tilly, concorda. Uma esterilização incompleta não tem importância, acrescenta ele, dada a alta taxa de fertilidade nos ratos tratados e a alta proporção de descendentes com o gene GFP. Gosden refere que, ainda que tenha as suas dúvidas, "o padrão de fertilidade destes animais é espantoso".

Ainda assim, o artigo deixa uma questão crucial em aberto: a relevância destas células fisiologicamente. Os autores dizem que parecem semelhantes a células estaminais espermatogónias, aquelas que permitem aos machos substituir as reservas de espermatozóides ao longo da vida mas se estas estaminais da linha germinativa feminina estão a aumentar as reservas de óvulos no ovário não é claro.

"Há a possibilidade de estarem presentes em tecidos adultos e não terem qualquer função", diz Tilly. "Se isso é verdade, é desapontante mas duvido que assim seja." Wu é igualmente optimista: ela acredita que em condições normais "elas se substituem e diferenciam em oócitos".

Albertini continua pouco convencido que as células representem algo mais que uma linhagem estranha de células estaminais transgénicas criadas em laboratório. Se isso for verdade, diz ele, os investigadores podem capitalizar sobre este procedimento como forma eficiente de obter descendência transgénica. Já para os tratamentos de fertilidade ele considera que "não tem relevância clínica".

Apesar de cada lado deste debate se manter firme, ambos os lados concordam que o trabalho, de uma equipa de que poucos na área tinham ouvido falar, vai precisar de verificação independente. Gosden refere que "se for replicado, vamos ter que reescrever os livros de texto". 

 

 

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