2009-03-26

Subject: Estudos comportamentais tradicionais têm falhas

 

Estudos comportamentais tradicionais têm falhas

 

 

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Uma das mais famosas experiências da biologia não é o trabalho sólido que tem sido considerado, dizem investigadores holandeses que o replicaram. Pelo contrário, é mais uma anedota que se tornou um pouco mais lendária de cada vez que o seu autor a contou.

O trabalho em questão foi realizado em 1947 pelo investigador holandês Niko Tinbergen sobre o comportamento das crias de gaivota.

Na altura, a ideia dominante sobre o comportamento animal era que a aprendizagem era a coisa mais importante. Tinbergen defendia que os animais chegam ao mundo com instintos já adaptados aos seus ambientes.

As gaivotas adultas têm um ponto vermelho na parte inferior do bico. Tinbergen, que partilhou o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1973, apresentou a crias selvagens aves modelo com pontos vermelhos e mediu a taxa de debicação no modelo.

A história que chegou aos livros de texto é que as crias têm uma forte tendência inata para debicar nos pontos vermelhos, que tinha evoluído como uma forma de fazer com os progenitores as alimentassem. O artigo original, no entanto, mostra que Tinbergen descobriu que as crias debicavam mais num ponto negro que num vermelho.

Num artigo de seguimento publicado em 1949, Tinbergen concluía que esta estranha descoberta tinha resultado de um erro nos seus métodos. ele tinha testado pontos vermelhos, negros, azuis, brancos e amarelos mas tinha apresentado os pontos vermelhos 'naturais' muito mais frequentemente que qualquer dos outros. As crias, decidiu ele, habituaram-se ao ponto vermelho e deixaram de o debicar.

Tinbergen nunca testou verdadeiramente esta sua ideia, pelo contrário, realizou outra experiência comparando os pontos vermelhos e negros apresentados igualmente e descobriu que o vermelho era realmente o preferido. Deste resultado ele criou um factor que, quando aplicado aos dados originais reduzia a aparente preferência das crias por outras cores que não o vermelho.

Inicialmente ele foi explícito acerca disso mas depois que os seus livros 'Estudo do Instinto' (1951) e 'O mundo das gaivotas' (1953), foram publicados, já tinha deixado de mencionar esta correcção e apresentava a descoberta como sendo baseada em dados não modificados.

"As alterações de um artigo para o seguinte não são substanciais mas se compararmos o primeiro com o último, muitos pequenos passos resultam num grande passo", diz Carel Ten Cate, da Universidade de Leiden, Holanda, que analisou e repetiu o trabalho de Tinbergen. "Houve decididamente algumas alterações que tornam o resultado mais simples e claro do que inicialmente era."

Tinbergen fez outras experiências com crias de gaivota, mostrando, por exemplo, que debicam até um ponto vermelho montado num pau sem corpo, logo é possível que ele achasse que tinha vincado o seu ponto de vista. Ele também pode ter simplificado os resultados com objectivos puramente retóricos.

 

Ten Cate refez a experiência original de Tinbergen e obteve o mesmo resultado, o negro era mais atraente que o vermelho. Também fez a experiência que não tinha sido feita, apresentando todas as cores igualmente e descobriu que a intuição de Tinbergen tinha mesmo sido correcta, as aves tendiam a debicar mais vezes nos pontos vermelhos.

Não há indicações de fraude no trabalho de Tinbergen, diz Ten Cate, e ele não deve ser menos considerado por isto. "Olhando através da visão actual apenas pensamos que o seu trabalho foi bastante desleixado", diz ele. "Mas não podemos usar essa retrospectiva porque na altura o seu trabalho foi realmente avançado."

"Tinbergen não deve ser castigado por isso", concorda Rebecca Kilner, que estuda o comportamento de aves na Universidade de Cambridge e não esteve envolvido neste novo estudo. "Tinbergen é um ícone da investigação do comportamento animal. Ele foi pioneiro na utilização de experiências de campo simples mas engenhosas e estas experiências são um exemplo clássico dessa abordagem."

Outros investigadores pensam que o estudo de Ten Cate arrisca-se a manchar o legado de Tinbergen. "Não é justo para Tinbergen, qualquer artigo de há 50 anos não passaria os standards modernos", diz Johan Bolhuis, investigador de comportamento animal na Universidade de Utrecht e editor de um livro sobre Tinbergen. "Se aplicássemos os mesmos standards ao trabalho de Darwin ele também seria considerado um mau experimentador."

"Seria muito fácil ser desagradável, se quiséssemos ser negativos e críticos, podíamos causar grandes danos à reputação de Tingergen", concorda o ecologista Hans Kruuk, biógrafo de Tinbergen e seu antigo estudante. "Ele simplificava e dourava as complicações. Se estas publicações aparecessem agora seriam destruídas mas as ideias são maravilhosas."

Ten Cate defende que não devíamos suavizar os erros de Tinbergen: "É uma questão de obter o equilíbrio correcto entre o respeito por um grande cientista e tornar claro que a sua história não foi tão perfeita como muitos pensavam e se diz nos livros de texto."

O ideal da forma como a ciência experimental funciona está frequentemente muito longe da realidade, seja quando se analisa o comportamento das aves ou física de partículas, diz Harry Collins, sociólogo da ciência na Universidade de Cardiff.

"De modo geral, quando as descobertas científicas surgem pela primeira vez são confusas e pouco arrumadas, são 'limpas' em retrospectiva. Se se é um cientista dir-se-á que isso surgirá no fim pois a natureza fala com vozes ambíguas. Falando como sociólogo, diria que é um processo histórico e o julgamento da história não pode ser antecipado." 

 

 

Saber mais:

Carel Ten Kate

Filhotes de gaivota unidos na pedinchice

 

 

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