2008-01-18

Subject: Escadas para peixes conduzem à morte

 

Escadas para peixes conduzem à morte

 

   

Por toda a América do Sul, as chamadas escadas para peixes foram concebidas para ajudar os peixes a nadar rio acima até às zonas de procriação mas afinal estão a enviar os animais para a morte, sem qualquer hipótese de fuga. Esta é, pelo menos, a conclusão de uma revisão das condições dos rios feita por dois investigadores no Brasil.

No Brasil, as populações de peixe começaram a entrar em declínio com a instalação de barragens hidroeléctricas nas décadas de 70 e 80, criando mais e mais reservatórios. Em 1991, mais de 600 toneladas de peixes migratórios foram capturados nas duas maiores bacias fluviais brasileiras mas em 2005 esse número desceu para 200 toneladas.

Pensou-se que o problema fosse o facto de as barragens estarem a cortar o acesso às habituais zonas de desova dos peixes que nadam rio acima. É um problema de proporções gigantescas pois existem cerca de 700 barragens de grande dimensão, só no Brasil, e 96% da energia do país provém de fontes hidroeléctricas.

Com as queixas dos pescadores e o declínio das pescas, alguns estados brasileiros obrigaram as companhias hidroeléctricas a construir escadas para peixes, uma série de degraus que permitem aos peixes ultrapassar os paredões das barragens. As observações iniciais sugeriram que os peixes estavam a usar as escadas mas o declínio continuava e, de facto, até se acelerou. 

Alguns ecologistas sugeriram que a aceleração se devia ao aumento das pescas mas Fernando Pelicice e Ângelo Agostinho, da Universidade Estatal do Maringá, suspeitaram que as próprias escadas podiam ser o problema.

Pelicice e Agostinho analisaram as escadas para peixes no rio Paraná e descobriram que elas representavam todos os marcos de serem armadilhas ecológicas e não ajudantes.

As escadas fornecem um fluxo rápido semelhante ao do rio, condições que atraem os peixes migratórios, como o dourado e a curimba, em busca de terrenos de desova. No topo das escadas, os peixes encontram o reservatório da barragem, mas como as condições não são aí favoráveis (as águas são demasiado límpidas e paradas para lhes fornecer protecção contra predadores e não têm o teor de oxigénio dos rios rápidos), os peixes fogem para os afluentes para desovar. 

Se não existem afluentes de águas rápidas na zona, os peixes morrem. Se conseguirem desovar, os juvenis deslocam-se rio abaixo e alcançam o paredão da barragem novamente, onde frequentemente morrem nas águas anóxicas ou são devorados por predadores antes de encontrarem a escada que conduz, rio abaixo, à segurança.

 

"Estavam todos preocupados com a forma como os peixes iriam subir a barragem mas ninguém pensou em como é que eles iam descer", diz Agostinho.

A equipa examinou duas áreas aprofundadamente, a barragem de Porto Primavera e o rio Paranapanema. Artigos publicados acerca dos peixes nestas zonas ajudaram a confirmar que os avistamentos de peixes a subir as escadas eram seguidos por um número muito baixo de peixes no ano seguinte.

Antes das escadas serem construídas, os peixes conseguiam alcançar as barragens e não avançavam mais para montante, voltavam para trás e procuravam pequenos afluentes onde desovar. Não era a situação ideal mas pelo menos não era uma armadilha, dizem os investigadores.

"É frustrante saber disto, especialmente porque os investigadores tiveram que analisar um problema ecológico semelhante na América do Norte", diz Bill Pine, ecologista de peixes na Universidade da Florida, Gainesville. 

Na América do Norte, algumas escadas para peixes ultrapassam as albufeiras das barragens completamente. As condições específicas dos diferentes locais e as exigências de diferentes espécies têm que ser levadas em conta quando se pensa num sistema destes, alerta Pine.

O melhor a fazer, continua Pine, é desenvolver agências para gerir as escadas de forma experimental, de forma a que se possa compreender qual é a melhor forma de apoiar as populações de peixe locais. “Só porque um dado design existe para um escada que funciona para o salmão do Pacífico não significa que irá funcionar para o peixe-gato do Amazonas. Precisamos de fazer um trabalho muito melhor a aprender com os nossos sucessos e falhanços a nível global." 

 

 

Saber mais:

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